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“Não importa a cor do gato, importa que cace rato...” – Imperador Chinês.

Não acredito que tenha acontecido, mas aconteceu. Sem menores sutilezas, meu amigo conseguiu comprovar, baseado em fatos verídicos, que o rico não precisa ser salvo e que, ironicamente, mais raras do que se esperava são as excessões dos que se opõem ao oportunismo.

Os fatos reais são estes:

Há não muito tempo atrás – nem tão pouco – surgia um grupo radical, na Inglaterra, que seqüestrava determinados personagens da ‘alta classe’, um trote idealista, nem tão pueril. Não pediam dinheiro nem jóias, nem passagens a ilhas paradisíacas semi-desertas. Apenas conversavam com o seqüestrado em seu idioma mais compreensível, ganhando sua confiança pouco a pouco, até que ao fim de sete dias, após ensinar Marx e Malcom X, Voltaire e Rosseau, Russel e Diogo Mainardi, o soltavam. Este não sabia de seus rostos nem poderia posteriormente discernir o tom de suas vozes, sempre abafadas por panos em suas máscaras. Faziam tudo do modo mais conspícuo possível, pacientemente, em trios e suas sombras para confundir as autoridades. Por pelo menos seis meses seus seqüestros eram noticiados com freqüência, tanto nos jornais quanto nas rádios e nas televisões. Em Londres vendiam lembretes com as marcas do grupo, um ‘lembrete’ do poder da revolução, ilustrando e lembrando um pouco o que se faz do símbolo da Anarquia e de Che Guevara. Algo sobrenatural. As autoridades nunca chegavam a lugar algum. O trabalho era profissional, provavelmente tinham alguém interno, detetive, policial, político sociopata (ou seria justamente o contrário e a excessão?) conhecedor da burocracia e capaz de burlar o touro e sua vaca n’uma só tacada.

Não se passou tanto tempo e, por motivos desconhecidos – não a nós, mas paciência comigo – os vulgos seqüestrados não davam mais queixas, e as famílias pareciam ‘preparadas’, esperando sua vez. As autoridades tampouco demonstravam maiores interesses, ou tinham deixado de demonstrar. Não mais investigavam justamente pela falta de queixas. Aparente e concomitantemente, as verbas iam e desapareciam com o passar dos meses. O caso fora arquivado, ou seja, praticamente jogado ao lixo.

Mas, caros amigos e amigas, nós sabemos – e eu lhes contarei – exatamente o que ocorreu. Nas páginas de classificados, em todos os jornais da cidade, aos poucos, surgiam anúncios bizarros aos melhores observadores. Alguns dos publicados encomendavam seqüestros, comprovando que seu pedido não mantinha nenhuma anomalia regulamentar, pois se tratava do encomendado encomendando. Auto-resgate... Outros classificados publicavam indivíduos (ou indigentes?) oferecendo seqüestros por somas módicas, ‘preços a ver com John Doe ou Bob Bloggs.’

Ouvi de meu amigo que ouviu de seu amigo que entrevistou um jornalista, que por sua vez e finalmente, entrevistou anonimamente a um dos empresários libertados pelo grupo radical. Pelo que contou da conversa, o empresário se sentia melhor do que nunca. Algo havia mudado sua vida e vinha de seu seqüestro, mas não necessariamente como estamos acostumados.

Não se tratava de síndrome pós-traumática ou quaisquer outros sintomas de neurose exacerbada, quanto menos psicoses e perversões, mesmo alguns destes tendo suas próprias patologias nomeadas a gosto e requinte pessoal. Sentia-se homem mudado e notava-se em seu semblante, ora prepotente e ufanista, agora natural, pseudo humilde e auto-amante. Não importava nada disto, mas sim o fato de que se sentia mudado. Os diálogos com os seqüestradores lhe deram uma nova perspectiva de vida, e não mais se fazia obtuso à realidade e os personagens tão humanos que a integravam. A adrenalina, enquanto não sabia se sobreviveria àquilo tudo, antes de conceber a natureza de seus hóspedes forçosos, e o fato de estar afastado de suas preocupações com os negócios e a família, o fizeram rebuscar nos âmagos de sua psique o motivo mais pleno de sua existência. Não encontrara resposta, ou não a revelara ao jornalista, ou um desses tantos propagadores dos fatos verídicos não nos quis passar adiante a essência do tal empresário.

O que se soube foi e ainda é que fundaram então, na Inglaterra, e assim espalhando-se sucessivamente ao resto da Europa até por fim invadir as Américas e o resto do ‘admirável mundo livre’, uma empresa de turismo especializada em ‘seqüestros maravilhosos’, a ‘melhor possível lição de suas vidas’, reservada apenas aos capacitados pagantes das somas – uma mais longa do que a outra – dos diversos pacotes oferecidos nas respectivas agências. Após marcado o seqüestro, o dia e a hora eram guardados à surpresa do momento, para que a experiência pudesse sentir-se o mais realista possível ao devido cliente. Os pacotes variavam de uma a duas a três semanas de cativeiro, e depois da ‘excursão’ mirabolante a ‘vítima’ teria o privilégio de conhecer os protagonistas de sua própria saga selvagem.

Tão selvagem, que a maior parte das empresas de grande porte multinacional fixaram em suas agendas as ‘férias de transcendência pessoal’, ou assim as chamavam. Quanto mais veterano o sujeito, obtinha por mérito e direito os melhores pacotes, tudo pago pelo poderoso chefão, ao menos uma vez assim para cada empresário. Não sabemos ao certo o que se deu do original grupo idealista, mas sabemos que parte de seus integrantes ficaram famosos com o livro: ‘Os seqüestros da Alma’. Bestseller, sem nenhuma dúvida. O que se sabe é que o negócio cresceu tanto com a expansão da primeira agência e abertura de diversas concorrentes, que as ações no mercado aos seqüestros eram as que mais cresciam.

E assim seguiu a saga dos seqüestros da alma, até que os empresários encontraram a Internet, a realidade virtual e os efeitos especiais maravilhosos de seus seriados televisionados e exibidios nas telas de seus cinemas. Nestes mesmos dias, os seqüestros desapareceram do mercado e, como já não vinham noticiados (parte do contrato com as emissoras, que exploravam a audiência noticiando cada qual, alternada e respectivamente, o seqüestro contratual), desapareceram da memória já então alienada da população.

Meu amigo, com este conto baseado em fatos reais e por mim fielmente confirmado, comprovou que na natureza nada é gratuito, poucas coisas mudam, mas tudo se vende.

RF

(Todas Segundas Feiras, nova cronica no blog!)


  (Inspirado no filme The Edukators, Alemanha, 2006 - Texto de Abril de 2006, www.osintensos.blogspot.com, Todos os direitos reservados a Shaping Performances, Inc.)
O Intenso
Enviado por O Intenso em 21/08/2006
Código do texto: T221581
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Sobre o autor
O Intenso
Estados Unidos, 36 anos
24 textos (1114 leituras)
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