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Idílio Discriminatório Sob Mastigação Semita Anglo Saxã e Prazerosa Audição da Melhor Música de 2005


IDÍLIO DISCRIMINATÓRIO SOB MASTIGAÇÃO SEMITA ANGLO SAXÃ E PRAZEROSA AUDIÇÃO DA MELHOR MUSICA DE 2005
Uma Resposta do Tempo Contido No Tempo

“(...)Mas a influência americana na cultura brasileira não começou com o Rock´n Roll. Todos os mais velhos da minha família e dos familiares das famílias amigas, tinham tido uma educação formal e uma cultura literária afrancesada (...) Mas o cinema e a canção popular americanas (...) a partir dos anos 40 passaram a dominar a cena”
CAETANO VELOSO EM VERDADE TROPICAL, Ed Ciia das Letras, pág 29 (2º parag.)

(...) O paralelo com os E.U.A é inevitável. Se todos os países do mundo têm, hoje, de se medir com a “ América” , de se posicionar em face do Império Americano, e se os outros países na América o tem que fazer de modo ainda mais direto(...). O caso do Brasil apresenta a agravante de ser um espelhamento mais evidente e um alheamento mais radical. O Brasil é o outro gigante da América, o outro Melting Pot de raças e culturas, o outro paraíso prometido a imigrantes europeus e asiáticos o Outro(...)”
Intro, CAETANO VELOSO EM VERDADE TROPICAL, Ed. Cia das Letras, pág. 14 (2º parag)


I



Voltando a calma, após os neuróticos momentos que sucederam meu despertar – Acordei as 08:35 min, com um sobressalto, meu ônibus partiria as 09:00 hs. Ainda precisava fechar a conta do Hotel, esperar a verificação do frigobar, arrumar a bolsa, escovar os dentes, tomar banho, vestir-me, chamar o elevador, espera-lo chegar, descer até a recepção, chamar um táxi e/ou chamar (ligar) para o Marcos da Multíplice, chegar a rodoviária e comprar passagem. Tudo isso em míseros, intermináveis e nervosos 25 min – O tempo que está contido no tempo, as vezes surpreende o inexorável, tem ele mais de psicológico, de imaginável, de sonho e pesadelo que possa imaginar Cronus, o efeito Schumam ou a realidade escravisada pelo relógio do “ Time is Money” . Consegui chegar enfim a rodoviária, faltando 5 min para as 09:00hs.
A calma veio como uma brisa. Uma inefável sensação de conforto que tomou conta  do corpo e desbloqueou o intelecto. Volvi a mim. Era eu. E sabia disso porque pensava.
Todo o périplo foi premiado, comprovei com proveitosa sensação de bem estar o ditado: “ Após a tempestade vem a bonanza” . A funcionária da Viação Cometa, que emitiu minha passagem, sorrindo me agraciou a calma com mais 60 min: - senhor, sua poltrona é a 27 e o ônibus parte as 10:00hs.

II
I

Pois bem, de posse de meus 60 minutos de bônus e mergulhado nos Poços de Caldas da calma, resolvi esbanjar o tempo extra que recebi do adverso, do subverso, do inesperado e do contente que habita os cantos  da vida da gente – As vezes não estão nos cantos nada, estão mesmo no centro, a luzir espalhafatosos sem que a vista veja e o  coração sinta, pode ser brincadeira de deus para quem é dele, das fadas para quem as tem como madrinha ou conspirações do universo para alguma distraída alma nem sempre envolvida de calma e verso – Fui fazer o que não havia feito, fui ao banheiro (toillete como uma gorda senhora companheira de viagem chamou aquele “ recanto sonhado” da rodoviária), com calma despachei aquele tutu do jantar, junto com os ovos de gema mole e o contra filé feito na manteiga, acho que também se foi na mesma carga a porção de salaminho que acompanhou a dose da cachacinha  seleta e a cerveja solitária que bebi no bar do Chiquinho.
Ponderei esta conexão com a absorta leitura de três páginas do “ Verdade Tropical” de Caetano Veloso, afinal tinha tempo. Nada como gastá-lo com despreocupação e cultura. Despachada a carga ficaria vazio e as letras e palavras que traziam a idéia contida no livro ocuparia este espaço. A minha sede e fome. A cultura as vezes sacia, sábia que é.
Alimentada a cabeça e com tempo ainda de sobra resolvi alimentar tronco e membros. Foi ali que nasceu este texto que até agora foi dono de si, pois que a idéia inicial será agora escrita, isto, se as caldas da prolixidade se afastarem na mesma proporção que me afasto de Poços (estou já no ônibus, nesta linha negra que corta o verde deste lado, hora coloridos pelo barro do solo arado, hora pelo branco distante e pequeno das casas que aparecem em saltos, do gado qual confete no mar verde das terras que faltam a tantos brasileiros, ora pelos diversos tons que o verde em sua existência madura, velha, morta ou nasciturna sugere.


III Entro na lanchonete da rodoviária e sou atendido pela chinesa que está acompanhada de uma prata da casa. Uma poçocaldense, bonita e simpática que corre em meu socorro, ou em socorro da chinesa que não me entendia:
- um suco Del Valle de pêssego por favor
-     pêssego, pêssego?
Perguntava, exclamava, quase dizia em um quase português, quase chinês, a senhora chinesa com uma latinha de Del Valle de manga na mão.
Essa cena tragicômica, que não era ímpar pois eu já havia vivenciado lá no centro de Poços outras iguais (assim como também já havia presenciado em Vila Velha/Vitória do E.Santo, na Barra da Tijuca/RJ, no Centro do Rio de Janeiro – antigo Saara e nas lanchonetes, praticamente todas, de Belford Roxo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias e São João de Meriti – estrelas da minha Baixada Fluminense), tinha como fundo musical uma música de estilo muito comum na cidade... a sertaneja...Que contraste, uma chinesa dona de uma lanchonete na rodoviária, porto de entrada e saída de pessoas de outros mares que tanto quanto ela são atraídas pela possibilidade e expulsos pelas adversidades contidas nos males do êxodo e dos processos migratórios que produzem uma diáspora que pode enriquecer cultural e economicamente uma região ou sob este mesmo formato universalizar um modus vivendus, descaracterizador do regional, salvos ambos por uma local. Eu era um howly, a chinesa é uma howly, a local diferentemente dos black trunk´s havaianos, não defendeu sua onda, praia e espaço com violência, cedeu a onda p´ra gente: bebi o suco de pêssego, fiquei atento a música, sob o olhar astuto da chinesa – ainda não havia pago a conta.
Paguei .
Me despedi, sentei-me no hall da rodoviária...
Ainda tinha tempo de sobra para gastar.Li mais uma página do livro, mas já tinha a cabeça em pensamentos voltados para as questões da migração...Fechei o livro, contrariado com a atenção que roubava, aprisionava e comandava minha vontade que era a de ler o livro, ficar absorto, deixar de perceber, contar, mensurar o tempo, queria apenas diluir-me nele, fazer parte e não ser parte, parte exterior, parte de fora, pele, com nervos sensíveis ligados a parte de dentro, assim me sentiria torturado como no início da manhã.
Fechei o livro, levantei-me, se não era o que eu queria não seria também o que a atenção queria...Fui até ao orelhão ligar para Francielle, pedir desculpas pelo transtorno da manhã e por ter feito o Marcos ir ao Hotel a toa (gastei R$ 15,00 de táxi de bobeira, mas vá lá, ganhei 60 min)...Enquanto falava ao telefone a               “ atenção”  enchia o saco com o tema da migração, com o êxodo, com a diáspora. Porra! Vou comer um quibe com Coca-Cola (se não posso fazer nada pela modificação e pelo equilíbrio heterogêneo de forças entre os EUA e o Oriente Médio, ao menos posso faze-los virar uma massa homogênea e gostosa, ao triturar o quibe com os dentes e verte-lo massa com a líquida Coca – Cola) na lanchonete da chinesa ouvindo música sertaneja e sob o socorro da local – poçocaldense – Assim faço um lanche globalizado e aplaco esta porra de idéia que não me deixa.
Para minha surpresa, quando piso os pés na lanchonete (e não pude deixar de lembrar e pensar na cena de 1942 – A Conquista do Paraíso, tanto pelo fato de a lanchonete ser da chinesa, quanto pelo de o Mercado Aberto Saara (no Rio de Janeiro) ser hoje dos chineses e ainda de que quase todas as lanchonetes serem de chineses, quanto pelos graves e contínuos atos de repulsa de parte dos brasileiros que repudiam as políticas afirmativas e os sistemas de cotas para as universidades publicas, o monopólio crescente de um setor do comércio na mão de estrangeiros não causa repulsa ao cidadão brasileiro, tanto quanto não causa o fato de a maioria dos estudantes universitários serem brancos da classe média para cima)...Nesse momento inicia-se a música que ali, classifiquei como a mais bonita do ano de 2005: Seu Jorge e Ana Carolina, num encontro feliz, sonoramente lindo, apaixonante e emocional, cantam, É ISSO AÌ...
Seu Jorge que é de Belford Roxo, lá do gogó da ema, lugar que como sugere o nome, é de abandono político-social , área anecúmena, de risco, violenta e miserável, fato que me remete a pensar que quando nós negros (pretos seria segundo alguns críticos da palavra negro, que remete a raça e seus conceitos escrotos, a forma politicamente correta de grafar sobre nós) fomos enfim “ libertos”  pelo menos na lei - a  Áurea – imediatamente se buscou conter um possível avanço sócio- econômico, indisponibilizando as “ Terras Devolutas” à ocupação negra (preta) com a criação da Lei de Terras, que limitava o acesso a terra, aos que a pudessem comprar. Ato contínuo, além da valorização do espaço urbano e rural se intensificam as políticas de incentivo a imigração para o Brasil na Europa e também no Oriente (extremo e médio), -  pois que esse processo apenas acentua-se já que fora iniciado com alguma força quando da vinda da família real para o Brasil em 1808, com a revogação da Lei de proibia a instalação de indústrias no Brasil ( o famoso Alvará expedido por Dna Maria, mãe de D. João VI), inicia-se então a vinda de levas de alemães principalmente e também de outros povos europeus – com as grandes levas de italianos e de chineses trazidos para trabalhar no campo (uma certa escravidão branca aconteceu), os negros libertos ficaram sem trabalho, sem educação, sem terras e assim sem a possibilidade de ascensão sócio-econômica, indo morar nos morros ou nas periferias das Metrópoles, produzindo assim as favelas, que inicialmente estão no centro das já faladas Metrópoles e as áreas chamadas de cidades dormitório já na periiferia, os bairros pobres é o gogó da ema, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro .
Pois bem, estas correntes tem sido continuas e lentamente quebradas ao longo de nossa caminhada.
Os EUA, a Europa, a Oceania e o Japão tem produzido enormes entraves e barreiras para impedir o livre trajeto de pessoas, a livre entrada e saída de migrantes a seus países. Mesmo aos turistas são impostas ações vexatórias por conta do cuidado, do medo e da negação assimilada, reclamada e claustrofóbicamente xenófoba de suas populações e povos.
Por que tantos brasileiros que não conhecem os males da xenofobia (dita existente em São Paulo, principalmente contra nós cariocas e também contra aqueles que como nós negros (pretos) fomos para a formação do Brasil, são para São Paulo seus pés e mãos, os nordestinos), tendem a se por contrários as ações que tentam “remediar” e por na média da equalização harmônica, os que foram historicamente impedidos de crescer sócio-economicamente, nitidamente prejudicados por “ estudos e teorias eugênicas” e não se voltam a pelo menos questionar...saber por que?, Que conseqüências trará a nossa cultura, economia, política, enfim a nossa realidade tropical, a verdadeira invasão de homens e mulheres chinesas em nossas Terras?
Continuava a música a tocar, a atenção tomava minha vontade. Ocupava cabeça, tronco e membros, o texto brotava e a chinesa: ME OLHANDO, um olhar de espera, de desconfiança e de curiosidade a espera do pagamento do quibe  e da Coca-Cola...
...Pensei ainda sob o olhar e a musica, sobre a falta de espaços para exibição de filmes nacionais, neste momento em que o cinema  brasileiro ruge como o leão de Metro ou voa como o condor da 20th Century Fox, e ainda sobre os espaços para curtas, que são parece-me uma estação anterior ao longa ou um descanso, uma ilha no meio do longa. Os cinemas e suas redes estão tomados e dominados pelos filmes americanos – ninguém reclama com a força ideal e as rádios que universalizam a música americana ou a produzida no Rio e em São Paulo com suas redes nacionais, pulverizando a musicalidade regional, quem briga e quem reclama?
Eu quero ouvir música Latina, Africana, Americana, Francesa, Italiana, Lusa, Hispânica, Japonesa, Palestina, Chinesa, Árabe, Libanesa...Quero saber do cinema Europeu Ocidental – cadê os filmes franceses? , Quero saber do cinema da Europa Oriental – cadê os filmes eslovenos? Cadê o cinema palestino? Quero saber do Cinema Latino – cadê os filmes argentinos?venezueleanos?guatemaltecos?
Se é para ser universalizado eu quero o universo inteiro. Ainda tenho tanto tempo...A Coca acabou e também o quibe. Não tenho mais fome...Por que ainda tenho tanto tempo?

Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 21/08/2006
Código do texto: T221793
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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Sylvio Neto