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HOJE VIVO NA RUA

Com 20 anos me casei com Lindalva, uma mulher espetacular. Tivemos quatro filhos, duas moças e dois rapazes. Buscamos educa-los nos valores cristãos favorecendo suas vidas. Nossos filhos tiveram tudo, nós trabalhamos para dar o melhor para eles. Todos estudaram nas melhoreres escolas, cursaram faculdade, tiveram e fizeram tudo o que quiseram.
Quando completei 50 anos, nossos filhos já estavam todos formados, todos eles saíram de casa para fazer sua vida e nós ficamos sozinhos, eu e minha mulher, mas é claro, eles sempre nos vinham ver se estávamos bem. Quando completei 55 anos, minha amada companheira adoeceu e chegou a falecer em pouco tempo. A sua morte foi a marca inicial de desgraças que eu nunca sonhei que iria passar pela minha vida.
Sempre, em tudo busquei dar uma boa formação para meus filhos, para que eles sempre lembrassem de mim, de nós.
Depois da morte de Lindalva meus filhos lentamente começaram a vir menos me visitar. Ligavam lá de vez em quando, mas não queriam papo. Uma vez liguei para a casa do meu filho mais novo e quem atendeu foi sua esposa, minha nora. Disse para ela que eu não estava muito bem e que precisa de ajuda para ir ao hospital. No telefone ela me disse que não quis saber mais de mim e que eu não era pra ligar mais para eles. Foi o caos. Cai em mim, chamei a ambulância. No som da sirene que se aproximava da minha casa vi a infelicidade se aproximando. A solidão tomava conta de mim. Pensei em não abrir a porta para os pára  médicos, pois sabia que a partir daquele momento minha vida viraria uma desgraça, e que eu seria tirado pra sempre de perto de quem eu amava.
E não foi diferente. Lembro que aqueles homens de branco entraram na minha casa, me disseram que iriam me levar pro pronto socorro e eu não vi mais nada....
Acordei no hospital, amarrado, cheios de agulhas pelo corpo. Senti muito medo. A enfermeira se aproximou de mim e pediu se eu tinha algum familiar para entrar em contato. Ainda com esperança dei o número do telefone do meu filho e disse que era para ela ligar, que ele viria. Ela, do quarto mesmo solicitou a ligação que foi feita.
Alô! Alô! Alô! Ninguém atendia....
Mais uma tentativa. Alô! Alô!.... Finalmente alguém atendeu. Sou a enfermeira ... e queria avisar que o senhor Augusto, seu pai, está internado no hospital ... e precisamos da sua presença para conversarmos. (...) (...) (...) Ela ficou ouvindo por um momento e desligou triste. Depois ela me disse: "A pessoa que me atendeu diz não conhecer o senhor. Acho que o número está errado". Eu confirmei o número, ela ligou de novo. Que decepção. Xingaram a pobre enfermeira que só queria me ajudar. Aqui eu via se confirmar aquilo que eu mesmo ouvira a poucas horas atrás.
A enfermeira disse que eu não poderia permanecer naquele quarto, pois custava muito e não tinha nenhum responsável por mim.  Logo depois chegou a maca e fui levado para outro lugar. Longe, longe, longe... entrei numa sala cheia de camas velhas com pessoas gemendo, chorando de dor. Fiquei mais alguns dias intermináveis. Passaram-se mais de dois meses. Depois chegou o médico com uma folha branca com algumas letras e me disse: "Estás liberado senhor, podes ir". Juntei o que era meu e sai (tinha apenas as roupas com as quais entrei no hospital). Não sabia para onde ir. Minha casa era longe. Para pegar táxi não tinha dinheiro então fui caminhando, caminhando...
Naquela noite dormi no primeiro viaduto que encontrei. Assim me tornei um morador de rua. Hoje tenha mais de sessenta anos, já fazem quase dez que não vejo meus filhos, minha família. Sou um ninguém, um a mais que está na rua. Meus filhos me abandonaram, minha casa foi saqueada, roubada e vendida. Vivo em baixo de viadutos, mendigando ou comendo lixo. Não tenho pra onde ir.

Penso que a família deveria respeitar mais aqueles que doam suas vidas para construir seu futuro. Se reencontrar meus filhos, não sei se vou reconhecer, mas gostaria de saber pelo menos como e onde estão e lembra-los que apesar de tudo sou o pai deles e que isso ninguém pode negar nem trocar...

Hermes José Novakoski

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Reeditado em 03/11/2006
Hermes José Novakoski
Enviado por Hermes José Novakoski em 04/06/2005
Reeditado em 03/11/2006
Código do texto: T22187
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Sobre o autor
Hermes José Novakoski
Marituba - Pará - Brasil, 35 anos
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Hermes José Novakoski