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         Arrependimento

 
                     O diário é, quase  sempre,                          o companheiro  da nossa solidão.

                                      Josué Montello


    Conversando, ela me perguntou pelo meu diário. E sem esperar a resposta, mostrou-me o seu. 
      No primeiro instante, pouco me interessei por ele. Mas para não ser indelicado, pus-me a folheá-lo, com um carinho mentiroso.
      Aos pouco, fui descobrindo que minha meiga amiga não se limitara em anotar, apenas, os fatos e casos que lhe aconteciam no seu dia a dia. 
       Fora mais além: contara um pouco da sua vida em pequenas e surpreendentes historinhas.
      Algumas dessas histórias, cheias de saudades; outras, cheias de ironia; e outras - não sei por que  -, ela as deixou inacabadas! Teve lá suas razões.
      Encontrei, também, páginas em branco. 
      Não estranhei. Na vida, há datas, há momentos que não devem ser re-lembrados. 
          Machado de Assis disse, com indiscutível perspicácia, que nem todos os dias "são tecidos de ouro".
      Sobre seus amores, ela confirmava a maioria, mas negava outros. Amores sofridos; amores difíceis; amores lindos...
      Também anotou seus ódios; suas rejeições; suas malquerenças; suas decepções. Usou a reticência - esses eloquentes três (...) pontinhos -,  para ocultar ressentimentos e esconder nomes...
       Terminei de ler o diário de minha amiga visivelmente arrependido. Arrependido, porque esquecera de escrever o meu.
       Deixara de botar num caderninho, ou em uma dessas agendas que a gente ganha todo final de ano, o que fui; o que fiz; meus amores; meus sonhos; minhas vitórias; meus fracassos e frustrações, em mais de meio século de vida.
       Deixaria para  meus filhos e para  meus netos o que o saudoso Josué Montello chamou de "o registro sincero da verdade de cada dia"; o registro da minha verdade.
      Encontrando-me, agora, na trilha estreita a caminho do meu ocaso definitivo, resta-me rabiscar,  e em segredo, minhas reminiscências. 
      Mas não direi tudo.
      O peso  dos anos me não permitirá contar, com precisão, o que aconteceu comigo; com alguém; entre ela e eu; naquela hora... naquele dia... naquele lugar. 
      O que contar, agora, serão vagas lembranças de quem esqueceu de escrever o seu diário e que por isso, como disse, se confessa arrependido...
  

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 22/08/2006
Reeditado em 28/05/2014
Código do texto: T222801
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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