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Arco-íris

Chegando ao lugar indicado por uma mulher vestida como enfermeira, deparou-se com uma fila de 29 pessoas. Sua senha era de número 30 e segurava o papel entre as mãos suadas. Tinha vagas lembranças do que acontecera no dia anterior.
Entre as pessoas enfileiradas, esperando por algo que ainda desconhecia, havia desde adolescentes até idosos, que já reclamavam pela demora. Foi então que lhe vieram à mente alguns flashes do que lhe tinha acometido, dores no peito, agulhadas, como se seu coração quisesse sair, livrando-se do restante do corpo.
Tentou perguntar a alguém pelo motivo daquela fila, mas por todo lado que olhava via a mesma expressão que estava estampada no seu rosto, a de dúvida. De repente, escutou algo, como um choro abafado.
Deu de ombros, não se preocupando muito até que a primeira pessoa, de cabeça baixa, saiu da salinha onde todos estavam esperando para entrar. Era uma mulher. Levantou os olhos, que estavam vermelhos e inchados denunciando a origem do choro, para encarar os semblantes surpresos e assustados dos componentes da fila.
Saindo da visão deles, ela foi se sentar e tomar um copo de água para se acalmar. Um jovem entrou na tão desejada salinha e, poucos minutos depois, ouviu-se um grito de dor, seguido de soluços copiosos.
E chegou a vez dele. Estava muito apreensivo, pensando ser a causa do choro de 29 pessoas algum tipo de tratamento doloroso. Respirou fundo e decidiu que seria firme, para dar coragem às pessoas que já se agrupavam às suas contas.
A clinica, naquele ano de 2050, ganhara o prêmio de melhor do mundo. Os pacientes, ali, contavam com todo tipo de terapia. Havia inúmeros recursos e aparelhos especializados segundo a necessidade de cada um.
O trigésimo paciente foi chamado e estranhou o fato de não haver qualquer placa de identificação encimando o batente da porta. Entrou e levou tamanho choque ao ver o que tinha ali dentro que recuou um passo.
Não entendeu por que saiam de lá em prantos. O lugar era magnífico e tinha uma atmosfera completamente estranha a uma clínica de recuperação. Era um jardim, parecia um lugar encantado. Os raios de sol penetravam ali e os perfumes das mais exóticas flores se misturavam no ar.
Olhou para trás e viu que a porta tinha sido fechada. E as cores do arco-íris vieram até ele, nas roupas de sete pessoas, que transpiravam beleza e pureza de espírito. A mulher vestida de vermelho pegou-lhe a mão, conduzindo-o até um lago tremeluzente.
Pouco depois, fizeram com que ele se sentasse num tapete bem próximo ao lago e olhasse para o fundo. Um a um, aqueles seres etéreos foram se sentando, cruzando as pernas na posição de lótus e se concentrando, murmurando algo parecido com um mantra.
Foi relaxando devagar, sentindo que todo seu organismo sentia aquelas vibrações de paz emanadas do arco-íris. Porém, chegado um momento, lembranças de sua vida inteira vieram-lhe à mente.
Abriu os olhos e fitou novamente as águas do lado. Sua vida estava passando ali como se fosse um filme. Pôde assistir ao seu nascimento, às suas travessuras de criança, ao momento em que conseguira o primeiro emprego, ao seu casamento. Emocionou-se em alguns momentos, derramando algumas lágrimas no lago.
Recordações do amigo perdido, da esposa infeliz e dos filhos metidos nos caminhos sinuosos da droga fizeram com que se arrependesse sinceramente da sua ambição exagerado em detrimento da presença como pai e marido.
Seguiram-se inúmeras imagens resultantes de suas atitudes mesquinhas. Entre outras, a de um homem que despedira por simples implicância mendigando na rua. E chorou pelo seu egoísmo, pela sua omissão e hipocrisia.
Alguns minutos depois, o filme terminou e os componentes do arco-íris elevaram suas mãos, agradecendo a benção que fora conferida ao homem, a de estar face a face com a sua consciência.
- Este é um banco de lágrimas, filho! – disse um velhinho vestido de amarelo – Considere-se um privilegiado por ser um dos escolhidos, um dos que ainda tem algo no coração para doar ao mais endurecidos. Esse lago é fruto da emoção, dos olhos de quem enxerga o mundo como um organismo em evolução e que merece ser salvo. Através das lágrimas desta equipe de socorro, estamos conseguindo sensibilizar pessoas como você, que ainda estão em tempo de serem alertadas. Mas a tarefa é muito grande para sete pessoas, a humanidade deve colaborar.
E o trigésimo paciente saiu da sala, com o peso da dúvida e da tristeza descarregado. Não era naquele dia que tudo iria mudar, inclusive ele mesmo. Mas foi naquele exato momento que viu nos olhos da filha que o esperava do lado de fora o mesmo reflexo do lago, convidando-o, não a se condenar ou culpar, mas a recomeçar como um passarinho que acaba de sair do ninho, mas já sabe para onde voar: em direção ao arco-íris.
Maria Flor
Enviado por Maria Flor em 23/08/2006
Código do texto: T223651
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Sobre a autora
Maria Flor
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 27 anos
30 textos (1143 leituras)
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Maria Flor