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Agora Canta!

short story para Rosa Pena

    Ela possuía um jeito especial de dizer as coisas. Era capaz de escrever um livro, inteirinho, falando de maneiras diferentes sobre as mesmas coisas. Isso se ela quisesse, e a sua imaginação ativa certamente lutaria contra. O vento estava agitado e então chegando à tranqüila praia, ela ajeitou o gracioso chapéu enfeitado com um entrançado de minúsculas conchinhas coloridas, de maneira que os seus cabelos deixassem de tampar a visão. Achou que as nuvens se desmanchavam muito rápido, apressadas em sentir de uma única vez todo o gosto da fugacidade, por certo. Não soube precisar se era da areia ou mesmo das ondas caudalosas e próximas, o beijo mais do que morno que lhe passeava a pele. Tirou a florida saída de praia e estendeu na areia uma toalha por sobre a qual deixou poucos pertences, e foi caminhar à beira-mar.
    A tristeza às vezes pode ser tão intensa quanto um nevoeiro a esconder os céus, fazendo-nos substituir, sem perceber, do altar puro da natureza, o anjo bom, pelo outro. Por isso, em algum ponto onde as areias pareciam mais finas, ela imaginou escrever com a ponta do dedão do pé direito: “Como se diz adeus?” Mas que idéia mais boba! Tentou sorrir, enquanto continuava o seu passeio, até que se lançou às ondas espumosas. E se ela morresse ali? Pensou. Mas como se o mar fosse um bálsamo, misteriosamente, quando ela saiu da água todas as pequenas e grandes tristezas que sentia ao chegar, haviam desaparecido.
    Ao fazer o caminho de volta, percebeu na areia da praia alguma coisa escrita, e com letras espantosamente caprichadas, o que ela muito estranhou, já que o vento mais do que nunca brincava à vontade. Era um poema de amor, contradizendo a sua vontade de dizer adeus, como se alguém lhe adivinhasse o pensamento. Como seria possível? E mesmo que fosse, ela não havia visto ninguém mais por ali.
    Não muito tempo se passou desde aquele dia e o autor das palavras apareceu, jurando que haviam até conversado, ao que ela protestava. Até que ele disse: - Não lembras porque o que eu ouvi não foram palavras, foi um canto. Um canto de uma sereia rosada que me encantou.
Agora canta pra mim, sereia, canta?
    É... realmente ela possuía muitas maneiras diferentes de dizer as mesmas coisas!
    Faz o que ele pede sereia, canta!

Da série: Deus e o demo na terra do silêncio (XIV)
Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 05/06/2005
Reeditado em 05/11/2006
Código do texto: T22383
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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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Cissa de Oliveira