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Encontro com a dor

Queria morrer, morrer de verdade, como um bicho desgraçado, sem hora pra dormir, sem filhos pra ninar. A vida parece não ter dignidade, é uma dor aguda que me rasga; como o som da harpa, que me fere e que me sangra como a lepra. Tudo que chega aos meus ouvidos tem duplo sentido, tudo que compro tem dois pesos, duas medidas. Para uns, as horas passam mais rapidamente, para mim, parecem não tem começo, meio e fim.

Quando era criança, minha mãe dizia pra todo mundo: veja como ele é bonitinho, é a cara do pai-pai. Quando cresci, realizei o sonho da “casa própria” para alegria dos meus pais. Comprei um bangalô financiado pela CEF, os meus amigos riram e disseram: “você é o mais novo próprio-otário”. Quando chego em uma loja pra comprar qualquer bagulho, querem saber do meu CPF e da minha conta bancária; se ela não tiver fundos, com certeza, vão me chamar de vagabundo.

Morte e vida são duas situações completamente distintas, mas no frigir dos ovos, elas se confundem, se misturam como o leite e o café. Alguns, coitados! Estão mortos e ainda não sabem. Vivem como fantasmas no seio da multidão, pessoas acovardadas pelas próprias pernas; nada fazem, nada sonham.

Minha amada diz que sou um romântico, talvez o último da face da terra, senão, o único que ela conhece. Há muito minhas palavras doces foram esquecidas de mim, há muito rimo, lucidez com estupidez. Minha Flor que me perdoe ou me desnude, por escrever palavras tão concretamente duras.

É divino ver e sentir, como somos assassinados todos os dias. E o que é mais gratificante: ter a fidúcia de que nos matam por tudo e por nada, pior, não nos enterram. A morte é lenta, nos obriga a fazer seguro de vida, seguro contra roubo, seguro contra incêndio. Isto sem falar que somos intimados a colocar cerca elétrica em nossas casas, alarmes em nossos carros e cabresto em nossas bocas.

Estou indo... Não sei se pra vida ou pra morte. Se puder, não espere por mim, posso demorar mais do que o de costume ou menos do que o necessário.
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 24/08/2006
Código do texto: T224020
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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