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       Duas histórias nordestinas

   
A primeira. Esta história aconteceu em Campina Grande, Estado da Paraíba, e já é conhecida de muita gente. Mas ainda há quem a ignore. 
        Por isso, não procedo mal em recontá-la; levando  em conta, principalmente, o belíssimo poema que a enriquece.

        Numa nordestina noite de luar, um delegado de polícia caiu na asneira de apreender um violão boêmio.
        Sacou-o, sem dó nem piedade, dos braços de um seresteiro, condenando o instrumento a permanecer calado, num canto de sua delegacia.

        O advogado, político, poeta e repentista paraibano Ronaldo Cunha Lima foi chamado para soltar o violão, que só sofrera este tipo de constrangimento até o início do século 20. Era um instrumento malvisto pela burguesia dominante.

         Coube ao trovador maranhense Catulo da Paixão Cearense, todo mundo sabe disso, acabar com o preconceito, levando seu violão ao palacete carioca do Doutor Ruy Barbosa, e, em 1908, aos salões iluminados e aristocráticos do Instituto Nacional de Música.

           Até Catulo, quem saísse pelas madrugadas, com um violão a tiracolo fazendo serestas, era chamado de vagabundo.
 
           (Uma das minhas frustrações é não ter aprendido a tocar violão; ainda que fosse no começo do século passado.)

            Ronaldo Cunha Lima recebeu a procuração, e, em versos primorosos, requereu o que ele chamou de "Habeas-pinho". 
           O poema é longo. Não o transcreverei, aqui, na íntegra. Mas peço ao leitor que, por favor, procure conhecê-lo no seu inteiro teor. 

          Diz Cunha Lima, na sua irretocável petição:

          "O instrumento do crime que se arrola,
           neste processo de contravenção,
           não é faca, revolver nem pistola
           é, simplesmente, doutor, um violão
.

          Um violão, doutor, que na verdade,
          Não matou nem feriu um cidadão.
         Feriu, sim, a sensibilidade
         De quem o ouviu na solidão
.
     .................................

         Mande soltá-lo pelo amor da noite
         Que se sente vazia em suas horas,
         P´ra que volte a sentir o terno açoite
         De suas cordas leves e sonoras.


         Libere o violão, Dr. Juiz,
         Em nome da Justiça e do Direito,
        É crime, porventura, o infeliz
        Cantar as mágoas que lhe enche o peito?"


         O magistrado, sem pestanejar, também em versos, assim deferiu o pedido:

        "Para que não carregue
        remorso no coração,
        determino que se entregue
        ao seu dono o violão."


         E o violão voltou para o peito do seresteiro.

            * * *

        A segunda história, me contaram, faz algum  tempo, teria acontecido em Sergipe.
       Na cidade de Aracaju, os vates populares Araripe Junior e John Kennedy disputavam a autoria dos versos de um poema intitulado No banco dos réus.

      - São meus - bradava Araripe
      - Não, fui eu quem os fiz - respondia o poeta Kennedy.

      O litígio envolvendo os dois vates passou a ser assusnto obrigatório nas feiras, botecos, barbearias e esquinas da capital sergipana.

      Como os dois repentistas não chegavam a um acordo, o caso foi parar na Justiça. A juíza incumbida de dirimir a dúvida, deu os versos ao poeta Araripe Junior.

      "Após a conciliação - disse a meritíssima -, até pedi que os dois declamassem alguns versos, e fui atendida."

       Achei correto o veredicto da ilustre magistrada. O vate perdedor pode ser ( e certamente o é) um excelente versejador; mas Kennedy não é nome de cantador do Nordeste.

        São admiráveis esses "fuxicos" entre poetas, repentistas, violeiros e cordelistas.  
        Se as brigas fossem sempre como as que travam os poetas, haveria menos sangue... 
       Como isso não é possível, vamos continuar nos divertindo com estas histórias ou estórias que só os nordestinos, com muita graça, sabem criar e contar.

 

 
 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 24/08/2006
Reeditado em 08/09/2013
Código do texto: T224382
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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