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Crônicas da Esquina ( Nossa Esquina )

NOSSA ESQUINA

Rua Visconde de Abaeté com Torres Homem. Essa esquina é como água para seus freqüentadores: absolutamente necessária. Reduto de simpáticas etnias etílicas, sua geografia tem a bênção dos céus. Ela comporta, como boa anfitriã que é, do simples vendedor de amendoim ao meritíssimo juiz de direito e o não menos eminente ex-juix de futebol Cabellada. Lugar de juízo e desatino, seu democrático espaço é a prova cabal da convivência na diversidade. Mística e carismática, ninguém resiste à benção batismal da cerveja gelada e dos petiscos de todos os gostos num só por conta da única chapa que os aquece a todos. Única e inconfundível, para ela convergem todos aqueles que, despindo-se da importância que o dever  obriga, se dissolvem em sua névoa e se deixam anônimos em intermináveis bate-papos, carteados e purrinhas junto à banca do Vitório. Tudo muito regado e azeitado como rezam as regras de um estatuto que não precisa ser escrito para se fazer respeitado.
De um lado, o Costa; do outro, o Zeca’s e, entre os dois, a esquina reina absoluta. Lugar de ócio, mas também negócio, em seu espaço particular as horas passam ao largo dos enfrentamentos diários a que chamamos cotidiano. Sua mecânica é a do relojoeiro maluco que permite aos convivas o simples prazer do “estar aí”, leve e solto. As mesas invadem as calçadas – estas invadidas pelo Tuninho, uma espécie de João Pedro Stélide do asfalto – e vão sendo ocupadas. Especialmente uma, deslocada para próximo à curva, costuma ser ocupada pelo Eliseu do Rio. Fusca estacionado e de porta aberta, nosso amigo se aboleta ao som de músicas meticulosamente escolhidas e gravadas por ele. Ali, as cervejas se multiplicam à maneira de um milagre muito particular Quem quiser chegar que chegue; cantar, que cante. Em breve, o cavaquinho será chamado para lhe fechar o dia quando, com dona Fátima ao lado, irá se recolher ao aconchego do lar.
Numa outra mesa, um pouco mais ao centro, avistam-se Luciano, Marcelinho, Fernando Professor, Jairo e outros que vão se somando. Mesa conhecida por seu ecletismo, os assuntos são variados embora tudo terminará em samba de nobre quilate.
Em frente à banca de jornal, Lídio, Osmani, Djalma e Serjão se divertem com as brigas do Vitório e do Athayde por conta de uma partida de purrinha mal resolvida e trapaceada por ambos. Ao lado da banca, sob a maltratada amendoeira, temos a sueca e a tranca. Menudo, Beça, Serginho Metralha, César, Serginho tricolor, Zé Mauro e tantos outros, altercam-se em disputas aguerridas e discussões calorosas que, às vezes, terminam quando, em protesto, o baralho é rasgado e atirado para o ar. Divertem-se.
Em meio a tudo isso, as cervejas se amontoam. Por trás do balcão do bar, a figura do Augustinho. Sua incompreensível matemática em picotes de papel é uma temeridade para todos que, nesse particular, respeitam-no.
Presenças diáfanas como o Jair, Perna e Marajá, do alto de suas transparências, por certo assistem a tudo e aprovam.
Esquina mágica de todos os dias e horários, nenhuma outra é mais fiel. Nenhuma outra é mais Vila Isabel. Evoé, Rosa!

                                                                        Aldo Guerra
                                                                      Vila Isabel, RJ.  
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 24/08/2006
Código do texto: T224587
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra