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BUROCRACIA

Estava bem ali  á sua frente . Não podia  acreditar no que seus olhos estavam vendo . Era impossível negar o que seus sentidos mostravam . Era  ele. De carne e osso. Um calor  subiu pelo seu rosto . Parecia não estar acreditando.
Correu  para contar a novidade  para todos na repartição .Se falasse , com certeza ninguem acreditaria. Era demais , sorte demais para ele, um simples  funcionáriozinho de uma repartição de que ninguém ouvira falar . E ele decidira  vir até ali, no horário do seu  trabalho. Sem dúvida era uma ocasião histórica.
A noticia  correu mais rápido do que  rastilho de polvora. Em pouco tempo  chegara ao ascensorista. dali sem duvida subiria até o Chefe do Setor, ao Diretor do Departamento  e quem sabe ao Secretário, ao Ministro e ao Presidente . Era sorte demais .Lá em baixo  alguns não acreditaram . Eles eram realmente uns privilegiados . O mais velho dos  funcionários  abriu seu sorriso , como a dizer  que não era possível, e se fosse verdade  poderia finalmente morrer em paz.O garoto de recados foi pessoalmente  ao Diretor contar a novidade . Agora a placa feita por ele , por ocasião do vigésimo aniversário do processo  poderia ser entregue.
O Diretor  era esperto , mas foi o rapaz do guichê quem o reconheceu. Somente se perguntava porque havia demorado tanto. Seguira  todas as disposições para o caso: Carimbara a Carta de Chamamento , tudo de acordo com a Ordem de Serviço  462664/02-1. Depois  tratou  de colocar no follow up  pelo prazo regulamentar do Decreto  468/03. O memorando  em quatro vias  como manda a POrtaria MS 4444/02. Não satisfeito , telegrafou e telefonou , usando todos os meios para encontra-lo .Ao final, cumpriu  o que  declara a última Circular  C- 423 de 6 de agosto de 2000.Ficaria ali por dez anos, Era bem capaz que neste prazo um parente aparecesse para saber  o saldo á receber . Então ele teria de mandar ao Departamento de Finanças  com  o Atestado de Óbito , Certidão de Nascimento  ou Casamento do parente , e prova deste parentesco, tudo em três vias  , com firma reconhecida . Uma vez feito isso , mandaria á um Auditor, que levaria ao Diretor que em reunião Plenária  decidiria finalmente sobre o pedido. Se fosse a favor, o caminho de volta  era mais rápido , na melhor das hipóteses , uns cinco anos. Se o Diretor negasse , então  só por via Judicial , e isso  levaria a discussão  por uns vinte ou trinta anos. Com obrigação legal de Recurso de oficio até o Supremo Tribunal Federal , tudo de acordo com o inciso III do Decreto 222/48, que regulamentou a Lei 226/45. Só então o coitado poderia pensar em receber o valor . Isso  se por acaso houvesse  diferença de valor na fase de Execução. Então, o coitado não receberia nunca . E ele tinha culpa? Não, ele só cumpria ordens e regulamentos legalmente  produzidos pelas autoridades competentes .
O velho  olhou para o guichê, e foi  embora. Ali estava o  primeiro soldado que conseguira receber  a sua pensão . A guerra : 1914.  
grotius
Enviado por grotius em 24/08/2006
Código do texto: T224596

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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