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Dia Lindo

Sonhei, noite dessas, um sonho interessante, e gostaria de compartilhá-lo.

Eis, eu era o Presidente da República. Não sabia como tinha chegado àquele estado, nem como vestia ternos de tão bom gosto, ou por quê usava as camisas de seda fina e sapatos de sei lá o quê que vale quinhentos e qüarenta e sete dólares com seis centavos. Minha agenda ali aberta com uma tal tagarela a ditar horários, e horário daqui e horário dali. Eu, mal entendia meu nome, mas era o mesmo de sempre, o que vocês conhecem, acompanhado de algo como Vossa Excelência ou algo parecido, pouco pior colocado. Meu primeiro horário era com o Ministro da Economia. A tagarela sem nome, esboçada e montada a traços de algumas personagens de seriados baratos norte-americanos assistidos ao longo da vida, dizia que eu tinha um plano. Mas, caros amigos e amigas, deste plano eu não me recordava, porque não o havia sonhado a tempo.

Encaminhou-me, a moça Frankenstein a uma sala larga onde, sentado em uma cadeira solitária no centro do vazio, esperava por mim o Ministro careca. Além da falha capilar e vestimentas caras, recordo de seus óculos escuros, estilo Bud Holly, pouco mais sofisticados. A tagarela se ia, e eu me quedei ali, parado, apenas observando o Ministro calado.

Minutos se passaram quando, apressados, adentraram dois sujeitos a larga sala e me escoltaram ao exterior, me guiaram escadaria acima a um balcão que, ó, quanta esperteza, se escondia nas paredes superiores desta dita larga sala, mas não dita de teto particularmente mais distante do piso. Ilusões de meu sonho ou da arquitetura, pouco importava. Observava atento ao Ministro que, ainda calado e ainda sentado, recebia instruções dos oficiais que prosseguiram a invadir o território logo após minha saída.

“O que está acontecendo?” Perguntei ao senhor sentado ao meu lado.
“Estão explicando o procedimento, Vossa Excelência.”
“E... qual é o procedimento?”
“Pois, Vossa Excelência, o senhor não se lembra? Fará o orçamento deste fim de ano de modo bem diferente do que em outros anos.”
“Sim... Continue...”
“Não os fará com números...”
“...”
“Observe, para quê perder tempo em fúteis explicações quando o espetáculo acaba de começar?”

Primeiro, entravam à sala um grupo de homens maltrapidos, mas não do mugre e da miséria que tanto asola nossas populações e sim do árduo labouro evidente nos calos de suas mãos e nas manchas de suas bermudas. O Ministro continuava mudo e aconchegado, e eu, conforme o pedido do estranho sujeito que parecia meu pai, apenas observava.

Um por um se aproximavam e começavam a contar. Podia ouvi-los, claramente, palavra por palavra e, apesar de não poder contar-lhes dos detalhes de seus ditos, conto que contavam de seus gastos, acompanhando-os sempre de relatos pessoais. Se João precisava dos cinqüenta reais apenas para leite, qüatrocentos para o aluguel, cento e dezesseis para a dispensa, o essencial além do essencial distribuído em cestas básicas, cada vez menos básicas ao longo dos anos, contava João e o Ministro anotava. Depois vinha José, e o Ministro anotava, e assim foi-se a manhã toda, homem por homem, mulher por mulher, até que a sala se esvaziou. Não sei por quê, mas lembro que eu sorria, ao contrário do que me recordo da expressão facial do Ministro.

Quando a sala se esvaziou, nem três segundos passados e mais uma fileira gigantesca de homens se formava. Me virei ao sujeito estranho que também me auxiliava no observar, e sem precisar perguntar, ele contestava:
“Não se preocupe, Vossa Excelência. Será exatamente como o senhor disse.”

Não sabia o que tinha dito, pois o disse antes de começar a sonhar! Queria compreender a natureza deste plano orçamental, mesmo que já me parecesse interessante o suficiente. Sabia que sonhava, algo sinistro, mas gostoso de se experimentar. Contudo, queria brincar de presidente com mais realismo, e o que diriam de Bush caso ficasse sentado sete minutos após receber a notícia do atentado de onze de Setembro? Um Presidente da República precisa estar preparado. Eu, claramente, não estava. Assim que, decidi mudar o plano e confessei ao sujeito algo de importância pessoal:

“Quero lhe testar, camarada. O que acontece? Quero saber se você conhece mesmo o procedimento, conforme o discutimos inúmeras vezes em inúmeras ocasiões. Desembucha, meu filho, pode falar, timtim por timtim.” Meu menino de dentro sorria com o bolo roubado.

“Não foram tantas as vezes, mas...”
“Pois não...?”
“Bem, Vossa Excelência, com a vista que daqui se vê não tenho como não saber do procedimento, nem, francamente, o senhor pode tê-lo esquecido. Olhe apenas, enquanto o senhor ouve o que já ouviu com o primeiro grupo e o Ministro. Os demais ministros esperam em sua sala de conferência em semi-jejum a bolo-de-vento e água. Os bens foram confiscados no mês passado e um salário reestabelecido. As benezes destes e de nossos deputados federais também, cortadas de acordo com os melhores países do mundo, para que possamos sê-lo, disseram-nos muitos dos grandes e antes invisíveis pensadores do Brasil. As reformas não surgiriam, estabelecemos todos em voto único, até que este novo orçamento não estivesse pronto. Ministro por ministro, cada qual em sua devida área, não contará com estatísticas, censos e números, mas sim com as necessidades pessoais de cada um dos cidadãos que quiserem ter sua situação mudada neste país, e são muitos, nem todos pacíficos, mas deixe que os capangas particulares dos ministros se preocupem com isto. Olhe pela janela, Vossa Excelência. O dia está lindo!”

E ali estavam todos. Um por um. Homens. Mulheres. Crianças. Maltrapidos, bem trapidos. Jovens com velhice às faces, e velhos com juventude nos braços. Professores. Artistas. Médicos. Enfermeiras. Favelados e suburbanos. Policiais e aviões. De Manaus ou Porto Alegre. De São Paulo ou de Brasília mesmo. De Tupy a Yemanjá. De Jacó a Jesus Cristo. De Budha a Maomé. De Lutero a Gasparetto. De Freud a todos os demais complexados, o todo do resto do mundo brasileiro, uma fileira infinita, estrondosa e exuberante. Desta, se ouviam as cantigas e os contos, a festa e a baderna, e se aproximavam com o passar das horas, com o passar do dia...

Não sei do fim de meu sonho, pois tampouco o sonhei. Acordei emocionado. Compreendera uma mensagem curta, mas tão longa e tão eterna. Olhei janela fora. O dia estava mesmo lindo.

  (Publicado no Jornal Brasileiro da Florida, Achei USA, www.acheiusa.com, e n'Os Intensos, www.osintensos.blogspot.com, Maio de 2006, Todos os direitos reservados a Shaping Performances, Inc)
O Intenso
Enviado por O Intenso em 25/08/2006
Código do texto: T225185
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Sobre o autor
O Intenso
Estados Unidos, 36 anos
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