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Lucidez de um velho

A casa, com as janelas fechadas, meio que gritava por novos ares, ventilação. Lá dentro, um senhor cozinhava, sem auxílio, seu desjejum. Já tinha seus 70 e poucos anos, e tivera uma vida próspera, três filhos, três netos.

Com o casamento daqueles, aliado às circunstâncias da vida – ficara viúvo há 10 anos -, voltara a conviver com a solidão. Dos três filhos, apenas um ainda morava no Rio de Janeiro, cidade natal sua.

O prato que cozinhava era o tradicional macarrão italiano. Pelas viagens que fizera mundo afora, ao longo de seus dias, tornou-se uma pessoa com requintes de sofisticação. Mas agora, os resquícios se limitavam ao gasto de uns trocados a mais no supermercado do bairro, para comprar essas massas importadas, além de outras iguarias.

Com custo, dada sua idade avançada, já vinha se realizando que com a morte de sua esposa, sua aposentadoria e todas as circunstâncias que o envolviam, sua energia vinha se dissipando. Apesar de velho, passou a conscientizar-se daquilo que o envolveu e deu razão ao seu viver ao longo de toda sua idade adulta.

À época, tinha sua família bem estruturada, e passou a enxergar com mais clareza seu papel enquanto pessoa inserida no mundo. Reconheceu, naqueles tempos passados, que mesmo sem que tivesse a sorte que teve – família, filhos, carreira -, seu foco interno poderia estar cada vez mais claro e lúcido. Não é que passou a dar um sentido a tudo, mas simplesmente as coisas estavam em ordem.

Os pontos traçados naqueles tempos vieram agora à tona a ele, um senhor solitário, de idade avançada.

Mas reconheceu que não precisaria necessariamente mudar de vida, viajar pelo mundo ou imitar a vida de um jovem. Continuava a ligar pros seus filhos de tempos em tempos, levava ainda sua vida pacata, com as limitações do seu corpo.

Foi apenas que o clique que lhe deu maior razão à existência em épocas passadas voltava a lhe inspirar. Isto se tornava mais claro, em confronto com seus pensamentos inicialmente confusos.

Não tinha grandes feitos a serem realizados, apenas recordou a consciência que lhe deu apoio ao longo de seus dias.

E com esta base, retornava ao seu dia-a-dia, fazendo as mesmas coisas de sempre, mas encarando os fatos diários com cada vez mais serenidade e sabedoria.

12.05.2010
Eduardo Piereck
Enviado por Eduardo Piereck em 12/05/2010
Código do texto: T2252700

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Sobre o autor
Eduardo Piereck
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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