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EU SONHEI QUE



  Eu sonhei que tu estavas tão linda // Numa festa de raro esplendor // Teu vestido de baile lembro ainda // Era branco todo branco meu amor // A orquestra tocou uma valsa dolente // Tomei-te aos braços // Fomos dançando // Ambos silentes // E os pares que rodeavam entre nós // Diziam coisas // Trocavam juras // À meia voz // Violinos enchiam o ar de emoções // De mil desejos // Uma centena // De corações // Pra despertar teu ciúme //  Tentei flertar alguém // Mas tu não flertaste ninguém // Olhavas só para mim // Vitórias de amor cantei // Mas foi tudo um sonho // Acordei.
Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda – valsa de autoria de Lamartine Babo e Francisco Matoso, feita para a opereta Viva o Amor. Em disco, a gravação original foi feita em 1942 por Francisco Alves, o Chico Viola, ou o Rei da Voz, como ficou conhecido. Orlando Silva, o cantor das multidões, Carlos Galhardo, Altemar Dutra e tantos outros igualmente gravaram esta maravilhosa valsa. Aliás, pela segunda, e agora, pela terceira vez, estou escrevendo o vocábulo valsa, ou o nome de um ritmo. Com o advento do “bate-estaca”, a pobreza rítmica envolveu gerações. Com o “bate-estaca” veio o “som”. Acima de setenta decibéis, cinco doses de whisky, carreiras, agulhas e fumaças outras, as pessoas são envolvidas e não têm mais a percepção desse envolvimento. E dê-lhe “bate-estaca” que, diga-se de passagem, é gostoso e anima uma festa. Mas não é o único nem o melhor ritmo. Por sinal, nem nome tem. Só como curiosidade, por quê foram preteridos os ritmos, tais como , o merengue, o calipso, o chá-chá-chá, a rumba, o mambo, o baião, o bolero, o tango, a milonga, o samba-canção, a marcha, a balada, o fox e, incrível, o nosso legítimo samba? E não se trata de passadismo. Esta é, lamentavelmente, a pobre realidade rítmica vigente.
Mas, voltemos ao título. Assim termina a letra: Mas foi tudo um sonho // Acordei. Será? Às vezes, para alguns, ou muitos, é na esfera dos sonhos que a vida tem mais sentido. Bem o sabem os poetas. Disseram os Beatles: “O sonho não acabou”. E algumas gerações viveram (ainda vivem?) sob essa abóbada. “Vitórias de amor cantei //. É... enquanto durou o sonho, as vitórias foram cantadas. Contudo, também os sonhos findam. E o cair na realidade pode frustrar, decepcionar, entristecer quem vivia no e pelo sonho. Por um quartel de século uma geração viveu a sonhar com a ética, a honestidade, o jeito próprio de governar. Assim como é possível entender a decepção do amante-bailarino-sonhador da letra da canção, igualmente é fácil imaginar a realidade pós sonho de quem fez tremular bandeirolas estreladas. Foi tudo um sonho //. Acordaram?  Não?  Que pena!
 
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 26/08/2006
Código do texto: T225574
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
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Cláudio Pinto de Sá