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      Passageiro clandestino

   1. A empresa aérea e o Johnnie Walker foram os responsáveis pelo que me aconteceu naquela noite.
   A empresa porque não conferiu meu cartão de embarque; e o uísque porque me fez embarcar daquele jeito!
   2. Aqui, mais uma vez confesso que tenho medo de voar. Para criar coragem, recorro a um escocês legítimo; a uma cervejinha; ou a um bom vinho tinto-seco.
    3. Por isso, protestei, com veemência, quando soube da proibição de servir bebida alcoólica em nossas  aeronaves, nos voos domésticos. Sem uns reforçados tragos, este covarde cronista, durante o voo, não come, não lê, e pouco conversa.
    4. Permaneço com minha poltrona na posição vertical, e mantenho meu sinto de segurança afivelado; mesmo que o avião esteja  atravessando céu de brigadeiro. 
    5. Pouco adianta o comandante garantir que a viagem está transcorrendo às mil maravilhas. Ao primeiro sinal de uma  turbulência, boba que for, tremo.
     6. Muito bem. Naquela noite, o plano de voo a ser cumprido pelo meu avião era este: São Paulo-Frankfurt, com escala em Salvador, o meu destino. 
     7. Decolei de Sampa às 20 horas. Duas horas e meia, depois, ou seja, por volta das 22:30 horas, deveria pousar no Aeroporto Internacional de Salvador, que espero volte um dia a ser  chamado Aeroporto Dois de Julho.
     8. Concluída a decolagem, foi-me servido um insípido lanche, que recusei. Lembrado de que, em minha casa, uma moqueca de camarão, fumegando, me esperava. 
     9. Alguns minutos de tranquilo voo, e, de repente, ouço esta mensagem:  -  " Senhores passageiros, com destino a Miami, com escala no Rio de Janeiro, boa noite! Dentro de alguns minutos estaremos pousando no Aeroporto Antônio Carlos Jobim."
      10. Empalideci. Chamei o comissário de bordo, e, aflito, lhe disse: - "Amigo, estou indo para Salvador e não para Miami."  O comissário também mudou de cor! 
       11. A partir daquele momento, passei a me considerar um passageiro clandestino. Com certeza tomara o avião errado.  Aí pensei: "Meu Deus, e agora?"
       12. Não escondendo sua preocupação, o comissário aconselhou-me a desembarcar no Rio. E, sem perda de tempo, procurar o Box da empresa aérea responsavel pelo meu equivocado embarque. 
       13. Desembarquei no Galeão pisando em brasas. Apesar de um tanto atordoado, encontrei o Box indicado, com surpreendente facilidade; e fui, imediatamente, atendido por uma afável e sonolenta carioquinha.
      14. Expus-lhe o meu problema. Ela disse compreender o meu drama, mas foi incisiva: "É, senhor, seu avião era outro, ou seja, o avião de Frankfurt, com escala, sim, na Boa Terra."
       15. Consultou, novamente, o computador, e me informou que, àquela hora, os voos para Salvador estavam encerrados.   E foi logo me dizendo: "O  senhor vai ter que pernoitar no Rio."  Querendo ser gentil, completou: "Tudo por conta da nossa empresa."
       16. Quase em pânico, perguntei-lhe: "Moça, e a minha moqueca? Como fica?"           E ela: "Que moqueca? O senhor vai ter que se contentar com um sanduíche de mortadela; logo mais, ele lhe será servido." E com um discreto boquejo, despediu-se de mim e do computador.
         Aceitei o pernoite e o sanduba com relativa resignação.  Não havia outra alternativa.
         17. Puseram-me em um bom hotel; um 4 estrelas. O ar refrigerado do quarto obrigou-me a ficar o resto da noite de paletó. Minha mala, passageira do avião de Frankfurt, já se encontrava na Bahia, segundo fora informado.
        18. Não consegui dormir. Um leve cochilo, e nada mais. Quando o dia amanheceu, tomei um garrafinha de Ballantin's, a última do frigobar, e embarquei no primeiro avião para Salvador.
         19. No almoço, ao lado de Ivone, satisfeita com meu retorno, comi a moqueca de camarão, contando-lhe o que me acontecera. Demos boas e prolongadas risadas...


 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 26/08/2006
Reeditado em 12/01/2017
Código do texto: T225711
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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