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O DONO DO OLHAR

O tempo passeia nas sombras presentes. O olhar distante parece nortear o caminho. Os personagens desfilam nas ribaltas do mundo com os papéis decorados, cruzam os cenários nos elencos escalados. Destino, acaso...? Sortes do mundo nos jogos cotidianos, possibilidades...
O signo do encontro perdido em algum significado. Uma ausência tão presente a desenhar as faces, os olhares, os gestos...
Poderia ter sido no ponto de ônibus, na padaria, na exaltação de um comício político, sob a culpa de uma imagem religiosa, mas... Os personagens nasceram distantes, caminhavam em trilhas diversas... A mulher percorria o dia com o desenho de um eclipse lunar no ventre ardente, o homem passeava nas estrelas em busca do calor dos seios amanhecidos... O céu dos ideais dividindo o universo. Noite e dia, sol e lua, necessidade do complemento. Fragmentos de afeto e carinho.
Quem sabe uma linha cruzada? Uma voz distante a afirmar sua verdadeira presença: Estou aqui! Espero! Existo!
Ideais românticos perdidos no caótico dia-a-dia. A espera do definitivo encontro desfaz-se nos desencontros rotineiros. A expectativa sob as nuvens de um céu cinza alimenta os firmamentos poéticos, os versos eróticos, a prosa romanceada... Colore os anseios com alguma luminosidade. A mulher e o homem se reconstroem na ficção.
Um salão cheio, um olhar forte a marcar os passos. O homem aproxima-se, a multidão afasta-o, a mulher interioriza o desejo, o homem exterioriza a palavra. A primavera lança ao vento os primeiros polens. Borboletas preenchem os céus em cores e vôos prósperos. Novas estações amadurecem os personagens.
A mulher percebe-se como um oceano possível de navegação, o homem compreende-se em um andarilho de tantos desertos. Ambos desfilam no mundo sob o mesmo céu. São as tantas fantasias em que se aventuram, sonham e despertam. São os tantos receios que lhes cerceiam a liberdade...
Novo encontro. O olhar amadurecido desfolha as folhas de outono, abandona o frio dos dias brancos de inverno, abre a selvagem flor nas entranhas primaveris. Madrugadas prolongam o encontro dos corpos, a extensão do encantamento, o semear dos adormecidos sonhos...
A mulher repousa nos braços do dono do olhar. Busca, com os olhos cerrados e um liberto sorriso, a percepção de todos os momentos... O olhar apolíneo emoldurando as palavras suaves, alicerçando a construção de um templo seguro de tantas profecias; o olhar dionisíaco a queimar o desejo de um corpo embriagado de prazer nos rituais bacantes de fertilidade.
O homem sente redesenhar o relevo do corpo da mulher a quem se entrega com a nudez de todas as máscaras, com a perspectiva do casto sentimento. Penetra nas tantas visões e sonhos femininos, alimentando a realização e a carência de cada movimento...
Os personagens criam um novo paralelo, entregam-se ao desvirginamento do cotidiano... Vivem nos céus confusos dos primeiros momentos, convivem nos horizontes tão marcados de maresia e amanhãs.
O olhar cresce na gestação de um novo olhar para o mundo.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 06/06/2005
Código do texto: T22640
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 14:24)
Helena Sut

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