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ON THE ROAD - II

No Seven Sisters National Park eu achei que as ovelhinhas estavam congeladas de frio. Porque eu estava. As ovelhas ficavam paradas ali nas colinas, todas zen. Nem sei quantos quilômetros andamos, meu pés pesando cem quilos cada um, a lama vai aderindo nas solas em camadas e camadas. David faz birdwatching e eu só quero chegar àquele desgraçado de precipício, tirar minhas fotos e ir embora. Zero grau é ótimo quando estamos andando na rua a caminho de um café, mas não aqui, com o vento fazendo ribombar minha cabeça como um sino.
Pronto, vi as sete colinas, o lugar onde os ingleses se suicidam, tirei minhas fotos e retornamos como soldados, marchando no mato e na lama. Alice muito cínica grita e aponta para o lixo atirado no chão, latas de Coca-Cola, garrafas plásticas, papel. Os ingleses se envergonham. Eles também às vezes se esquecem de serem ecológicos.
O melhor foi sentar no carro quentinho e beber café com leite e conhaque. Agora vamos para Alfriston. Ainda bem. Trekking não é comigo.
Seaford, Alfriston, Eastbourne... O sul da Inglaterra é lindo. Entramos numa fazenda onde vende produtos naturais. Procuro uma vaca louca para fotografar, mas só vejo patinhos. No paiol, bebidas da fazenda: cidras, grappa, vinhos de todos os tipos, inclusive um de morango que deve ser horrível. Sinto saudade do Trebbiano de Romagna, o vinho que acalentava meu banzo quando eu morava na Itália.
Estou exausto. Mas meus amigos ingleses são espartanos. Querem correr estrada, me mostrar tudo, England is beautiful, etc, etc. Depois meio blasé David mostra o rio Ouse e diz que ali Virginia Woolf se matou com os bolsos do casaco cheios de pedra. O quê?! Desperto do meu estado catatônico, não acredito que aquilo, aquele riachinho, é o rio Ouse onde Virginia se matou. Fico histérico, de repente cenas de Orlando e Between the Acts vão surgindo em minha mente, quero fotografar o Ouse, quero fotografar minha cara apalermada, quero fotografar minhas botas imundas, Sebastião Salgado que me perdoe. E aí David tem dó de mim, faz uma meia volta, pega outra estrada e em dez minutos estamos em frente à Monk’s House, onde viveram Leonard e Virginia. I don’t believe. A casa está fechada mas mesmo assim imploro uma foto e assim Alice, a Chata, me clica em êxtase.
Lembro a história de um amigo que fez uma viagem complicada à Grécia, ele nem mesmo sabia o motivo da ida e não sabia o que estava procurando por lá. Foi quando ele se deparou com um santuário antiquíssimo escondido num bosque. Toda a sua angústia acabara ali diante do santuário onde ele ficou só poucos minutos - parecia que ele tinha atravessado o oceano só pra ver aqueles montinhos de mármore carcomidos, para depois encontrar a paz e voltar para o Brasil.
Até parece que minha viagem se resumiu à decepção de ver um rio que na verdade é um riacho e ver meu rosto ao lado da Monk’s House. E mesmo que tudo possa parecer carcomido um dia, como aquele santuário na Grécia, terei outra imagem para lembrar.
Ao retornarmos para Brighton, não parecia que era inverno. O céu sem nuvens e aquele sol derretendo-se inteiro sobre o litoral. Parece o Mediterrâneo, murmuro. Alice, Liza e David não escutam. Falam que Shirley Bassey está na cidade com sua nova turnê, Alice não lembra quem é essa tal Shirley, aí David cantarola umas musiquinhas, Liza ri, eu seguro a câmera como um tesouro...


Raimundo de Moraes
Enviado por Raimundo de Moraes em 06/06/2005
Reeditado em 08/02/2007
Código do texto: T22645

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Sobre o autor
Raimundo de Moraes
Recife - Pernambuco - Brasil
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