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SOBREVIVÊNCIA E TRAGÉDIA


Aterros represados... Fantasmas surgem ao anoitecer e trazem à tona reminiscências infantis, desejos e medos. Os sonhos recorrentes que, nas marés cheias, desnudam o medo e a vulnerabilidade. A realidade se desfaz na areia revolta, arranha o tempo e impede o olhar limpo para o profundo oceano de vivências e percepções.
O mar se torna agressivo. Ondas raivosas invadem a arrebentação e começam a levar os mais frágeis. Choros infantis, pedidos de socorro... Gritos que se perdem no mar revolto. Silêncio definitivo, sem legendas ou traduções... Desespero! Medo! Refém das incessantes ondas, a multidão tenta fugir e não percebe a formação da monstruosa onda que se forma no horizonte. A parede de água alcança o céu. A união dos extremos numa fachada de catástrofe. A grande onda estoura e se recompõe diversas vezes, engolindo o cenário e a possibilidade de sobrevivência nas máscaras apavoradas desenterradas na areia.
Após revolver nas ondas com falta de ar e o corpo adormecido, consigo me salvar. Por acaso ou destino, sou devolvida à praia com a vivência de morte. Percebo o ato de sobreviver perdido entre o heroísmo e a covardia. Distante e assombrada, observo os últimos vestígios de vida no repuxo da onda. Agora tudo é seco como se fosse um deserto. Sozinha, deixo o choro preencher o oceano morto e, sem conseguir me mexer, aguardo com medo e desespero a chegada de uma nova onda...
Acordo. O barulho da arrebentação dá continuidade ao pesadelo. Encolho-me dividida entre a realidade e o sonho. Aos poucos, percebo as sombras da noite e sinto-me segura envolvida na maresia de novas metáforas. Inconsciente...
Calmaria. Pequenas ondas ainda tentam me puxar. Aflita, corro na orla com os pés molhados, sentindo a força do mar e suas intenções indecifráveis... Ainda sonho em ondas e acordo com o corpo ofegante, curvado ao medo e sem conseguir exprimir os movimentos.
Novo plano. Realidade...
Proximidade do final de ano, perspectivas de novos ciclos são abortadas com a notícia da catástrofe na Ásia.  Abalos naturais costuram o medo inconsciente com a realidade. Apocalipse. A tragédia dos milhares de seres engolidos por ondas enormes e abandonados anônimos numa orla devastada, os relatos desesperados dos sobreviventes e o silêncio dos que guardam as primeiras impressões nos olhos desprotegidos das crianças ou as expressões abandonadas dos enlutados. A dor de sobreviver a um desastre, crianças batizadas com o significado de tantas perdas, o nome Tsunami gravado para sempre na identificação da sobrevivência. Elaboração da morte nos nascimentos posteriores. Medo! Pavor! Realidade! Tentativas de superação...
O mundo permanece atordoado com o crescente número de mortos e a iminência de epidemias. Todas as ajudas são insuficientes diante da impossibilidade de despertar e recuperar a realidade na calmaria. As ondas não representaram os fluxos do inconsciente, mas arrastaram preocupações ecológicas e humanitárias à consciência coletiva. Restam as imagens de uma praia de corpos e das feições sofridas e solitárias dos sobreviventes ainda vulneráveis às ondas da vida.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/01/2005
Código do texto: T2274
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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