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Cemitério

Cemitério, onde dormem os restos de vidas do sonho ao amor. Sonho dos lúcidos mortais ensinados sob uma única forma de viver; e se desconhecem nos próprios questionamentos, momentos antes de morrer. Louvemos os loucos, livres da luxúria e vaidade, dos conceitos e temores à liberdade, porque no cemitério só perecem os normais, cujo sentido dado à vida é inexplorável e desconhecido.

É no cemitério onde vivem os sujos, os limpos, os podres animais; onde adormecem os nosso pais, a nossa história, a vergonha paradoxal; nossas mães, nossos irmãos, nossa única e irreconhecível verdade. Enquanto vivos, para os mortais, a verdade é um dogma inquebrável; os questionadores da tal são pecadores que não zelam pela vida. Para os loucos imortais, a verdade é inventada, pois estes têm consciência de que esta não há e por si só não há como existir. Ora, para os mortais, viver nunca é o bastante e só se dão conta do fato quando estão a se lamentar no último suspiro de suas vidas. Ao sentir a primeira molécula de oxigênio rasgar-lhe a alma como fogo envenenado, o louco imortal conhece o poder da vida e sabe, desde o primórdio de sua existência, de que não basta só viver para viver. A vida é mais que ela mesma.

No cemitério moram as almas arrependidas que não se cansam de chorar. No cemitério nascem enterros suncumbidos sobre flores e cruzes da saudade e do ódio incompreendido diante do corte sem cicatrização da vida. A alma vai, livre, mas o corpo fica. A face piedosa e pálida, indiferentemente melancólica, inexpressiva, fechada para as próprias lamentações e perdidas no perdão sem mais significados, se afunda na negra cratera cavada na terra e lá para sempre se enterra. Aquele corpo nada mais é, nada mais significa; foi-se para sempre...

O louco imortal sabe que o corpo nada foi e nada será; a consciência é eterna, as idéias são e sempre serão. As marcas aqui deixadas sempre estarão guardadas numa memória distante, e essas marcas sempre serão sentidas, tocadas, cheiradas e ouvidas por uma alma amada que para sempre estará sentindo a falta de quem abraçar.

Justamente, são as idéias que conhecem a vida e só por meio delas é que podemos nos imortalizar.
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 28/08/2006
Código do texto: T227455
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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 28 anos
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