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O RETORNO


Um mergulho no lago. O filme inicia com um grupo de adolescentes no alto de uma torre desafiando os limites da transição com saltos arriscados. Um rito de passagem para a adolescência.  O menor, Ivan, com aproximadamente doze anos, rende-se ao medo e é resgatado pela mãe que lhe assegura proteção e carinho com um pacto ainda cicatrizado na ligação umbilical. Sente medo de altura, sente medo de ser chamado de covarde pelos demais, sente medo de romper o liame com a infância...
O dia seguinte de Ivan é marcado pela exclusão desonrosa do grupo, inclusive pela ofensa do irmão Andrei, e pelo retorno do pai depois de uma vida de ausência. A crueldade do ritual de passagem traduzida na rejeição dos adolescentes e a crueldade do pai indiferente compreendida em uma volta sem legendas, marcada por diálogos reticentes, ansiedade e desconforto são os primeiros alicerces do roteiro.
Os personagens se reúnem ao redor da mesa de jantar e o pai completamente desconhecido assume, de forma autoritária e surpreendente, sua posição na família. Exige que os filhos tomem vinho e avisa que viajará com eles para uma pescaria no próximo dia. A mãe, não identificada por nome, é uma mulher de feições dramáticas e frases curtas, encerra sua participação com um trágico e enigmático perfil em contraste com a escuridão. Os sentimentos estão represados na cena, um silêncio preenche o argumento e enseja o retorno da narrativa para reencontrar a personagem com alguma resposta.
Ivan e Andrei estão inquietos. O diálogo insone marca o desejo de aprofundar a relação com o pai na idealizada viagem e o medo do homem identificado por uma foto antiga, emoldurada em doze anos de ausência, silêncio e na face amarga.
A viagem é tensa. Os perfis dos personagens são delineados com clareza. O pai, também sem nome, realça seus mistérios com novas interrogações. O filho mais velho tenta se aproximar do pai sem questionamentos, como se a presença pudesse remendar o tempo perdido. Ivan é a face da ausência cicatrizada e da dor da transição. A perda definitiva da infância com as percepções presentes e os primeiros ventos da rebeldia juvenil são os remos apropriados para uma maturidade ilhada nos contextos reais.
O cenário é quase protagonista e expressa os conflitos com uma narrativa mais constante entrecortada por silêncios, telefonemas enigmáticos, raivas, jogos de poder, palavras soltas, agressões e tentativas de reencontro. Os três personagens partem de uma pequena aldeia no norte da Rússia, passam por uma cidade marcada pela violência externa gerada pelas vicissitudes do mundo contemporâneo e depois são envolvidos por um cenário natural sem influência de civilização. Estão entregues aos próprios demônios e às sombras de suas relações interrompidas num ambiente estranho e isolado.
As grandes emoções dos personagens são envolvidas pelas incontroláveis intempéries naturais: o abandono do caçula na chuva, a fúria dos ventos, a travessia em uma tempestade sob a autoridade de um pai ditador... Grandes metáforas que caminham para o isolamento definitivo em uma ilha virgem com o encontro de um navio naufragado e a manifestação dos conflitos reprimidos na ruptura do tempo desvirginado de sonhos e descobertas infantis.
A platéia aguarda o desvendamento de todas as interrogações. Cada espectador incorpora os fortes sentimentos em sua geografia erma e primitiva e busca redescobrir um caminho de ausências e presenças.
O pai desenterra um objeto desconhecido; os três caminham até uma alta torre no centro da ilha; Ivan observa o pai e o irmão subirem a precária construção enquanto permanece preso ao chão do seu medo; Andrei ganha a perspectiva da unidade da ilha; o caçula mostra ao irmão que se apropriou da faca do pai, os filhos pegam o pequeno barco para pescar com horário marcado no relógio paterno; a pesca mal sucedida faz com que os jovens, num ato de transgressão, descubram um navio naufragado do outro lado da ilha; o pai aguarda os filhos e exacerba sua violência contra Andrei por causa do descumprimento do horário; Ivan se rebela e ameaça o pai com a faca, larga a arma e foge para a alta torre no centro da ilha...
O espectador tenta apreender todas as metáforas e decifrá-las. A ilha deserta, o vento incessante, a difícil travessia na tempestade, a arma do pai capturada pelo filho rebelde, a torre, o navio naufragado, o relógio...
Contudo, o filme encerra com novas interrogações enraizadas na morte banal do pai diante da superação do medo de altura de Ivan. A alta torre se torna um refúgio para o caçula e o marco definitivo de sua maturidade. Os filhos se unem para levar o corpo do pai até o barco, sofrem para transportar o enigmático morto... Os sentimentos novamente são reticentes. A dor e o cansaço marcam a nova travessia para os presentes e ausentes. Não há espaço para luto, talvez não existam motivos... Na chegada ao continente, o barco novamente se desprende e afunda com o corpo do pai num oceano profundo e sem retorno. Os filhos ainda tentam resgatá-lo, mas a natureza é implacável em seus movimentos. Restam retratos e um diário de viagem num caminho a ser explorado pelos jovens órfãos.
“O Retorno” é uma obra prima do cineasta russo Andrei Zvyagintsev. Um filme que grava na alma de cada espectador uma percepção sem retorno, provavelmente com muitos ventos interiores.
Um mergulho no lago. A tênue fronteira entre ficção e realidade é violada. Todos se observam na altura de suas vivências e podem sentir medo diante dos próprios abismos interiores. A dor de um rito de passagem... Por fatalidade, o jovem ator Wladimir Garin que interpretou o irmão mais velho, aparentemente submisso ao autoritarismo do pai fictício, morreu logo após as filmagens ao se arriscar num mergulho lançado da mesma torre que marcou o inicio da trajetória dos irmãos.
A construção penetra nas carnes cicatrizadas de ausências com os riscos de todos os retornos. A vertigem, a insegurança e a superfície ondulada mostram que nada mais será como antes. O retorno é uma transgressão, a impossibilidade de redimir o tempo partido e de se reencontrar na história.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/01/2005
Código do texto: T2275
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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