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MÃOS DADAS

                  MÃOS DADAS

                               “Vou deixar a vida me levar
                                   pra onde ela quiser...”


        Nem tudo o que se quer é possível. Às vezes, ou quem sabe, na maioria delas, acontecem fatos inesperados, para os quais não estávamos preparados e, inexoravelmente, com os quais teremos que conviver. E não nos é ofertada a opção “descartar”; só nos resta aceitar e fazer dela, a vida – que segue –, a melhor possível.

Às vezes – ou sempre? – somos nós que, insensivelmente, provocamos tudo. Um filho inesperado, um mal-estar, uma discussão, uma aprovação em um concurso, um amor novo que chega, ou um velho que se vai... Já disse antes que “amor novo é o que se renova sempre”. Assim, por coerência, velho é aquele com que acostuma, que se torna rotineiro, previsível como a luz do sol. Renovar, surpreender e surpreender-se, aumenta não só a libido, mas também a auto-estima. Ultrapassar os limites, renovar os contatos, fazer-se benquisto, necessário a outrem, eleva não só o ego como também a satisfação tão necessária ao nosso bem-estar.

Amor novo se dá muito mais em relação ao próximo, latu sensu. O contato com o semelhante é muito mais presente e permanente que com o ser amado, tomando-se amor no sentido sexual. Mais amplo, numericamente falando, e tão satisfatório quanto. Além disto, é uma questão de praticidade: é muito mais fácil acentuar um contato tornando-o amizade, que no plano sexual. Naquele campo, tem-se muito mais vontade de servir que ser servido, enquanto que neste é exatamente o oposto. A cobrança, naquele, se bem que ainda exista, é muito menor que no outro. Se há a necessidade de agradar em ambos, naquele ela é automática, enquanto que no segundo torna-se uma obrigação, cuja fatura nos é apresentada a cada instante.

Além de tudo isto - e muito mais se poderia arregimentar em defesa do que até então se disse -, socialmente falando, o amor erótico não é permitido entre iguais. Por mais legal que seja, não soa legal. Embora também, vulgarmente, se diz ser impossível a amizade entre sexos opostos. É fruto de uma visão deturpada de o que é amizade. Ela pode se mesclar ao sexo, mas não necessariamente. E, se se tem relação com o outro visando auferir lucro, não é amizade, mas negócio.

O amigo é capaz de nos surpreender muito mais que o amante, uma vez que dele não se cobra nada. Se os olhos são bem abertos para as atitudes dos amigos, vêem-se claramente as nuances melhores desta relação. O descompromisso, a total ausência de propósitos, o desprendimento full time, podem encantar tanto quanto – ou quem sabe mais que - um beijo. Pequenos detalhes, como um “boa viagem” inesperado, aquecem o coração, transbordam a alma. E tornam aquela, realmente, uma boa viagem.
Assim, volta-se ao início: fomos nós que provocamos o encantamento alheio com a nossa pessoa? Ou seria ela predisposta a se encantar, independentemente de nossos “esforços”? Não devemos nos (pre)ocupar em encontrar respostas, mas simplesmente aceitar as intempéries da vida, vendo-as como um fluxo natural seu. Se aconteceu, nós fizemos – ou faremos – por merecer.
Surpreendemo-nos com a facilidade que há para estabelecer estes laços! Surgem do nada – embora às vezes sonhemos com eles -, naturalmente. Ofertamos um “oi” e recebemos em troco um “bom dia! Como vai você?”. Oferecemos um diálogo recheado de frases feitas, “a la Paulo Coelho” ou livros de auto-ajuda -, que nos parecem tão óbvios, embora ditos do fundo do coração, e o outro nos “ouve”. E agradece. E se não esquece de. E, mais inesperado ainda, retribui. De forma, se se puder mensurar, maior ainda.

           Amizades que se iniciam em uma roda de violão de uma bucólica e insossa cidade interiorana, nas relações familiares – uma vez eu os pais e irmãos não são naturalmente nossos amigos -, em uma sala de aula, em uma boite, em um “msn”! Que se perpetuam ao longo de uma co-habitação, no ambiente profissional, seja em uma relação superior/subordinado, seja entre colegas, de parcos contatos via e-mail, telefonemas ou simples convivência diária. Que se percebe na visita recebida – quando de enfermidades ou não -, na brincadeira infantil, na “zoação”, no segredo que se compartilha, na oferta do convívio familiar, na cobrança de contato, na atenção ao seu chamado, na mensagem de texto via celular...
Assim vai a vida. “E lá se vai / mais um dia...”, trazendo-nos coisas indesejáveis mil. Entretanto, enchendo nossos olhos com pequeninas coisas, tão naturais que, se não lhes abrirmos os olhos, não as perceberemos. Por isso, é melhor não questionar a vida, pois isso não se explica. Entretanto, planta-se, cultiva-se. Mas sempre em meio a espinhos. Para que a sua suavidade se faça mais perceptível.
                                              10/08/05
Pabinha
Enviado por Pabinha em 29/08/2006
Código do texto: T228190
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Sobre o autor
Pabinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
32 textos (4979 leituras)
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