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Crônicas da Esquina ( A Confraria )

 A CONFRARIA

Serginho Cedae ligou-me logo cedo. Estremeço ao toque repentino e, naquela névoa de silêncio partido, agarrei-me à moderna ampulheta: seis horas da matina! Para um noctívago como eu, a esse horário, o pijama sequer exibe as rugas que o corpo, aninhando-se em busca da melhor posição, produz. Eu mal contara o último carneirinho saltando a cerca da vigília, e já era arrebatado de volta ao mundo real do qual despedira-me há pouco.
 Atenderia àquele insólito chamado? Quem, em pleno gozo de um juízo perfeito, ousaria violar o sono dos justos? O toque seguinte veio como uma premonição. Vinha espeto. Boas notícias costumam aguardar que toda a madrugada se dissolva no calor que o sol empresta. Por outro lado, acontecimentos menos alvissareiros batem-nos à porta com a velocidade da luz ou quase.
 Entre sonolento e atônito, tentei erguer-me. Um novo chamado punha em risco os outros sonos da casa que eu precisava preservar. Mas, ainda assim, hesitei. Ao quinto toque, atenderá a solícita secretária que registrará o recado para ser degustado durante o café da manhã. No entanto, o drible eletrônico precipitou-me à sala.
Alô?!
Oi, sou eu! Te acordei?
Nessas horas, as respostas são sempre embaraçosas e, para evitá-las, me mantive mudo.
Oi, é o Sérgio! Serginho Cedae!
O mundo pareceu desabar. Não só o ilustre amigo tem aversão a Grahm Bell, como também nunca é visto antes do meio-dia, exceto quando a madrugada – essa amante de muitos maridos – o seduz, o que, atualmente, não lhe é contumaz. Sento e preparo-me para maus presságios.
Oi, Serginho, o que é que houve?
A Confraria vem logo mais. Todos!
E daí? Perguntei meio grogue.
Mas como e daí? Você não sabe?
Não sabia. Meu estado de letargia interditava-me qualquer entendimento. Confraria... Seriam os alquimistas e suas tábuas de Hermes Trimegistus? Viria a tal Confraria anunciar o alinhamento dos planetas e o início de uma nova era? Que todos? Comecei a imaginá-los chegando com seus mantos amarelos. No Costa, os mais desavisados poderiam imaginar o prenúncio do carnaval.
Serginho, você está bem?
Estou, pô!
Já ligou pro Paulo Coelho? Disse brincando.
A essa pergunta, meu amigo perdeu a calma:
Olha, o pessoal da Confraria vai chegar às onze horas em ponto. Estou apenas avisando.
Desculpe, Sérgio. Mas você ligar às seis da matina! Que Confraria?
A do Leme, rapaz! O pessoal do PHODIA SER PHIÓ! Eles vêm prá festa do Jacaré!
Olhei pela janela. Experimentei o alívio que sobrevém à tensão. Então era isso. Não sei se me despedi do amigo, mas desliguei. Os amigos do Leme viriam ao Costa. Marquinhos, Jerônimo e seus jornais auto-adesivos, Capitão e seu humor escatológico. Uma reunião de irmãos, onde copos de cerveja, samba e bom papo se multiplicarão como pães. Uma vez mais, sairíamos como que de banda.
Não me perdôo pela falta. Estarei lá, pontualmente, às onze. Quanto a você, amigo Sérgio, sinceramente, queira desculpar-me.

                                                                          Aldo Guerra
                                                                        Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 29/08/2006
Reeditado em 29/08/2006
Código do texto: T228318
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra