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O C A R V A L H O

  O registro gráfico de certos acontecimentos, quando apresentados em artigos de jornais e revistas, têm a possibilidade, e até mesmo a obrigação legal, de serem despersonalizados de impropérios. Assim, não raras vezes, lemos uma letra, ou uma sílaba, seguida de reticência, conduzindo o leitor ao pensamento do escritor e à palavra que este quer representar. Fica subentendido o  “palavrão”.
A televisão, som e imagem,  atualmente, encontra-se em estado mais liberal. Não raras vezes vemos/ouvimos apresentadores proferirem palavras que já foram chamadas “de baixo calão”.  O que outrora foi considerado obscenidade, pode hoje ser aceito de forma natural.
Adjetivações e comparações vêm expressas com uma dessas palavras. Assim, podemos ouvir comentários nesse sentido: para qualificar uma festa muito agradável, pode se ouvir: “Pô, foi uma p... festa. O que seria um pejorativo ou chulo, passa a exercer uma qualificação.  Poder-se-ia dizer que é uma linguagem recheada de eufemismo.
Dentro desse enfoque,  o título deste artigo é uma forma discreta (?) de poder reportar uma observação que venho fazendo há algum tempo. Refiro-me a validade, ou até a legalidade, durante uma partida de futebol, de serem colocados microfones “abertos”  junto as laterais do campo de jogo. Em vários jogos que vi/ouvi pela televisão, o jogador mais falado era o carvalho ( e aqui sou obrigado a usar o sub-reptício). Era carvalho, chuta essa bola; carvalho, bate logo a falta; carvalho, marca de cima; carvalho juiz, foi falta; carvalho auxiliar, foi impedimento. E o mais curioso é que esse tal de carvalho era bradado pelos dois treinadores e por outros componentes do banco de reservas das duas equipes.  É o jogador mais falado. Um verdadeiro craque, o carvalho.
Não posso negar que tive dificuldades de encaminhar o presente texto. No encerramento vou deixar uma pergunta: as acomodações vernaculares podem e devem ser aceitas indiscriminadamente, e nesse caso devemos abolir do dicionário certas palavras, tais como pudor, educação, sensatez, disciplina e tantas outras, cedendo lugar aos modismos e, no bojo destes, as extravagâncias, ou devemos regrar a postura pública, principalmente em ambiente esportivo, e considerarmos um abuso, uma falta de educação e, acima de tudo, uma licenciosidade impune o comportamento  citado acima?   Ou ainda, será que o bandalho popularizado é o reflexo do abandono ou desleixo para com a nossa língua portuguesa, notadamente pelo baixíssimo índice per capita de livros lidos pelo nosso povo?  São respostas difíceis, pois as perguntas são do carvalho (opa, deslizei), digo, insinuantes.
 

Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 29/08/2006
Código do texto: T228324
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23331 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá