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FACULDADES PÚBLICAS DO GUARUJÁ

Num tempo em que se reclama tanto – aliás, como o brasileiro reclama! – da falta de oportunidades de estudo, quando as universidades estão concentradas no chão onde o PIB é maior, temos uma notícia muito interessante: O Guarujá está com Faculdades Públicas para formar seus cidadãos e prepará-los para um futuro onde possam exercer plenamente seus dotes acadêmicos e profissionais. Vamos conhecer:
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UNIVERSIDADE DE GUARDADORES DE CARROS – Não há uma esquina em Guarujá ou Vicente de Carvalho que não possamos contemplar os alunos desta faculdade. São pessoas que estão procurando uma colocação no mercado profissional futuro como manobristas e gerentes de estacionamento, muito provavelmente.
Basta encostar seu carro e terá em volta vários acadêmicos com a seguinte frase: “Tio, posso dar uma olhadinha?” Além do aspecto profissional, existe o laço afetivo, pois esta faculdade promove o cidadão motorizado a Tio, automaticamente. A forma de tributação desta faculdade é um tanto quanto variável: Pode se negociar os valores, desde centavos até valores fixos em dezenas de reais, verdadeiros cartéis, quando estão á beira de uma discoteca ou ginásio em noite de shows importantes.
Vale citar que existe um zoneamento dos Campi desta enorme Universidade, onde cada um respeita o espaço do outrem; quando isto não acontece, tudo é resolvido na mesa de discussões: muitas vezes, uma maca de hospital ou a mesa de inox do necrotério.
TECNÓLOGO EM ARRASTÃO – Com certeza, os vários quilômetros de praias de nossa Ilha conseguem ser um Campus maravilhoso para o estudo e prática deste curso.
Com o know-how importado das faculdades similares cariocas, o jovem se habilita a conhecer as técnicas de contato íntimo com a sociedade, seja “low” ou “high society” e que freqüenta as areias micóticas do Guarujá.
Existem formas mais elementares de estudo, quando os estudantes recolhem o que vêem pela frente e aquelas técnicas mais apuradas, seletivas, visando preferencialmente indivíduos de sotaque estranho e aspecto caucasiano.
UNIVERSIDADE LIVRE DO LATROCÍNIO – Uma das vedetes na Ilha, esta Faculdade forma cidadãos especializados não apenas em roubar, mas em tirar a vida do assaltado. Sob o argumento sócio-científico de “uma melhor distribuição de renda”, podemos ver em várias ruas e esquinas a ação do corpo discente que pertence a esta Faculdade. Há muitos anos, quase foi extinta, funcionando apenas no período noturno, porém, atualmente, funciona em período integral – manhã, tarde e noite – inclusive aos sábados, domingos e feriados.
FACULDADE DE  (MÁ) EDUCAÇÃO NO TRÂNSITO – Acolhe alunos de uma faixa etária bem extensa: Desde pequenos, até os mais idosos, os assistentes deste curso têm que cumprir algumas matérias como:
• tráfego analítico de bicicletas, na contra-mão
• atravessamento geométrico fora da faixa de pedestres
• estacionamento oblíquo-paralelo em fila dupla
• desobedecimento integral e diferencial dos sinais de trânsito

É interessante lembrar que muitos alunos recebem bolsa-auxílio, como forma de incentivo para que não abandonem esta Faculdade, que vem através de uma política de trânsito caótica e uma impunidade generosa. Tudo isso faz com que Vicente de Carvalho seja igualada com Pequim e Havana. A única diferença é que aqui – infelizmente - não tem Paredón.
CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA DE HUMILHAÇÃO DA 3ª IDADE – Nem corte-e-costura, nem jogo de bocha: o que o guarujaense acima dos 65 anos aprende neste curso são elementos básicos de cidadania, tais como:
• permanência extensiva em filas nos PS municipais, que visa o enrijecimento da musculatura e da paciência,
• apresentação de RG no transporte público monopolizado, ops, digo, municipalizado, mesmo portando uma coleção de rugas e cabelos brancos capaz de dar inveja a Matusalém
Com certeza, é um curso que nem todos conseguem concluir, pois têm algo mais interessante a fazer, em outra vida.
UNIVERSIDADE ABERTA DE FAVELIZAÇÃO – É o curso mais antigo, mais freqüentado e mais concorrido do Guarujá. Com certeza, formamos muitos destes alunos a cada ano que passa e exportamos a tecnologia para outras muitas localidades. É preciso citar a forma impressionante como este curso alcança interessados de outras cidades e de outros estados. Trata-se de uma ocupação ordeiramente desordenada dos espaços onde os quatrocentões paulistas do início do século XX não desejaram se estabelecer tais como morros e mangues.
Neste curso o estudante aprende a desafiar Isaac Newton e a lei da gravidade (deve estar obsoleta) e de outro lado, também aprende a estabelecer uma convivência pacífica com o mangue e os crustáceos que ali habitam; criando, inclusive uma defesa de tese intitulada:
“Eu e a maré: um convívio de altos e baixos”.
O acadêmico tem, praticamente, uma livre-docência quando gradua nesta faculdade, que até mudou convenções seculares de geografia: Uma Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados. No caso do Guarujá, existe uma densa faixa de favelas entre a água e a terra acima citadas.
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Mais do que uma piada, este texto pretende mostrar o quão é fácil acabar com uma cidade, acabando com seus habitantes, primeiramente. É uma tática de guerra usada pelos antigos assírios e babilônios: destruímos a elite e a cultura e capturamos o povo cativo, escravo de uma tirania sócio-econômica sem-fim.
É uma tristeza, como educador, enxergar meus alunos saindo da escola e passarem o dia na rua, ociosos, guardando os carros que talvez nunca terão nesta vida; alunos que hoje vivem confinados em celas, talvez por mérito exclusivamente seus, mas com uma parcela de culpa de uma Prefeitura inoperante e insensível aos problemas públicos, já há várias gestões. São prefeitos, vereadores e vereadoras cegos, surdos e mudos quanto aos anseios da população, excetuando-se raríssimas exceções. Por isso sempre digo que precisamos de gente que goste de gente, pessoas acostumadas a lidar com público – professores, médicos, assistentes sociais – e não burocratas pós-graduados em inoperância e desonestidade.  (grifo do auor)
Não quero ser o pessimista de plantão, sei que apontar os erros é fácil, mas esse grupo que adentra ao Paço a cada 4 anos tem recursos de sobra para gerenciar uma cidade rica em praias e gente, em cultura e tradições, em IPTU e ISS, se não o fazem, a culpa não é deles e sim de quem os colocam lá: o próprio povo.
Mário Quintana, eterno poeta gaúcho, representante da mais asséptica poesia modernista já disse que “a ironia só atinge a inteligência”. Quem viver, verá.
Marcelo Lopes
Enviado por Marcelo Lopes em 07/06/2005
Código do texto: T22846
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Sobre o autor
Marcelo Lopes
Guarujá - São Paulo - Brasil, 47 anos
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