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V I R U N D U M

 
A pesquisa folclórica tem a propriedade de diferenciar uma invencionice de uma visão equivocada ou mesmo fantasiosa. Um exemplo está no fogo fátuo, que pode virar mula sem cabeça. Se um folclorista em pesquisa, ao falar com uma pessoa moradora em área rural, e ouvir desta a firmeza e convicção de que já viu a mula sem cabeça, essa informação não é inventada; a pessoa pode ter visto o fenômeno do fogo fátuo e, ignorando esse acontecimento físico, ter a sensação da observância de uma mula sem cabeça. Se essa informação virar crendice, pronto, a mula sem cabeça existe mesmo e está vivo um fato folclórico.
Aspectos dessa ordem norteiam o pesquisador folclórico a checar todo o tipo de informação. Nada pode ser desprezado antes de uma minuciosa análise. Naturalmente que em muitas ocasiões existem os inevitáveis equívocos; os “alarmes falsos”, e o estudo é interrompido e abandonado, causando decepção.
O “Virundum” está neste contexto, e quem nos contou foi o folclorista Paixão Cortes. Corria o ano de 1951 e a dupla Paixão Cortes e Barbosa Lessa fazia inúmeras pesquisas das danças, músicas e outras particularidades dos usos e costumes do Rio Grande do Sul. Uma informação foi passada ao Paixão: na região interiorana do Planalto Médio existia um homem negro, ermitão, analfabeto, que vivia num casebre e freqüentemente cantarolava uma canção, a qual chamava de Virundum. O Paixão, ávido em descobertas folclóricas, colocou o gravador que possuía, maior do que uma caixa de sapatos, numa mala e de trem rumou para a região. Desembarcou na estação mais próxima do local indicado, alugou uma carroça e muito tempo e percalços depois chegou ao local onde o preto velho morava. Explicou-lhe o motivo da viagem e perguntou-lhe onde aprendera a canção Virundum; quem lhe ensinara. O interiorano, em sua simplicidade mas com muito orgulho pôs-se de pé e disse ao Paixão: “Foi o finado Getúlio, um 1930”. Paixão Cortes “armou” o gravador e pediu ao homem que cantasse para ele poder gravar. E o preto velho lascou: “Virundum Piranga Armagem Prástica”.
Paixão desligou o gravador e, desenxabido, voltou para Porto Alegre. Acabara de gravar o Hino Nacional Brasileiro (ou quase isso) na voz de um matuto

 
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 31/08/2006
Código do texto: T229315
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23327 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá