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Fatias do Cotidiano_I

Fatias do Cotidiano_I
Tere Penhabe
 
A manhã era das mais promissoras. Sol radiante, brisa amena, sorrisos contagiantes distribuídos em partes iguais pelos transeuntes. Desci do ônibus no terminal rodoviário do Valongo, e ia caminhando sem pressa para a saída.
Passei pela encarregada da limpeza, empunhando alegremente sua vassoura e pá, cantarolando uma musiquinha da Tati Quebra Barraco. Seu dia, assim como o meu, parecia estar sendo um dia muito feliz, diferenciando-se apenas no gosto musical, o que é perfeitamente compreensível e normal.
De repente, ouvi seu grito e ao voltar-me, ela estava com as duas mãos na cabeça, vassoura e pá espalhadas pelo chão, e me disse:
- Ai que dó... eu não gosto de olhar, tenho pena...
Surpresa, segui a direção do seu olhar e vi: de uma viatura da polícia militar, desceram dois policiais e deram voz de prisão para um rapaz, que sem nenhuma resistência, colocara as duas mãos sobre a cabeça e estava sendo revistado.
O olhar da funcionária, era de plena compaixão, como aqueles que a gente tem, quando quer ajudar e não pode.
Diante do meu olhar estupefato, um terceiro policial que se dirigia para a ocorrência, falou-me rapidamente:
- Ele roubou uma lojinha ali na rodoviária, é nosso velho conhecido... _ e seguiu em frente.
Demorou para eu sair daquela espécie de transe em que a cena me colocou, não a do meliante, mas da funcionária local.
O ladrão era um rapaz em torno dos 16 ou 17 anos, loiro, bem vestido, cabelos bem cortados, um rosto sereno, de quem está com a vida que pediu a Deus. Não aparentava desespero ou arrependimento, apenas a tranqüilidade de quem conhece de sobra as mazelas da impunidade.
Olhei calmamente para aquela senhora e falei:
- A senhora está aqui fazendo o seu trabalho, está um dia bonito e vê-se que está muito feliz, ganhando seu dinheirinho honestamente... porque sente pena de um ladrão pego em flagrante?
Ela gaguejou um pouco mas acabou dizendo apenas:
- Não sei... ele é um moço tão bonito... parece tão jovem... sei lá, eu sinto pena... e continuou seu trabalho sorrindo...
Naquele momento, eu senti que o meu dia estava estragado. Nada que me afetasse diretamente, nada que merecesse realmente a minha atenção, mas foi impossível não refletir sobre o que acontece ao nosso redor...
Pensei a princípio na tal "inversão de valores" que tanto falam ultimamente, mas não era o caso. O caso é que as" pessoas" estão sendo julgadas, e não, os "atos" que elas praticam.
Ninguém é bandido porque roubou uma revista na lojinha da esquina. Mas virá a ser, se o seu ato for abonado, se deixarem que ele pense que está certo, que ele tem esse direito. Até um ponto em que ele não se preocupará mais com os julgamentos, e irá em frente, cada vez mais fundo, cada vez mais sórdido.
Se aquele menino que foi preso em flagrante, fosse um velho horroroso, com a barba por fazer, roupas sujas e cabelo ensebado... ele seria um ladrão condenável para todos, porque não foi o ato de roubar que foi julgado por aquela senhora que assistiu, mas sim, a aparência de quem roubou.
Perante a lei, ele está a salvo também, porque é jovem demais para ser considerado um criminoso, mas quando atingir a idade para tanto, já terá se formado com direito a pós-graduação em Criminologia, e certamente vai apenas engrossar as fileiras dos PCCs da vida.
Segui meu caminho rumo ao ambulatório, com a mente povoada de pensamentos... ocorreu-me um texto que escrevi em fevereiro/2004, falando da minha decepção com o nosso "salvador da Pátria", o Presidente.
Não se falava ainda em mensalão, nem dez por cento das mazelas do PT haviam sido mostradas, mas para mim, o nosso "salvador" já tinha se transformado num exterminador. Era público e notório isso, entretanto, eu recebia toneladas de mensagens criticando-o, mas não pelos seus atos públicos, e sim, pela falta do seu dedo em piadinhas de muito mau gosto, pela sua feiúra, pelos seus erros de gramática, pela sua maneira grosseira de ser... mas nunca pelos seus atos governamentais. Então paira uma dúvida para mim: será que se ele fosse um homem apresentável, física e culturalmente, se tivesse uma imagem semelhante aos nossos ídolos, Richard Gere ou Antonio Fagundes... ele e sua corja teriam ido mais longe ainda?
Eu não tenho dúvida que sim. Considerando a cena que assisti hoje, e que eu sei que não se trata de uma cena isolada, eu acho que os seus atos não foram realmente julgados e esmiuçados, e sim, a sua aparência,  que mesmo tendo a pior nota que alguém pode esperar, foi acrescida dos pontos que o colocam como favorito nas eleições, por conta dos oitenta “mangos” da Bolsa Família. Mas ele que se cuide, porque se Rodrigo Santoro entra na parada... já era!
Isto é Brasil...il...il...il... O resto é prosopopéia.
 
Santos, 03.07.2006_14:00 hs
www.amoremversoeprosa.com
Tere Penhabe
Enviado por Tere Penhabe em 31/08/2006
Código do texto: T229413

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Sobre a autora
Tere Penhabe
Santos - São Paulo - Brasil, 61 anos
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