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Sobre as batatas

Sobre as batatas

Um dia e ensinaram a plantar batatas. Foi um homem que veio e me contou como se plantava. Eu entendi e gostei da idéia, porque sempre fui interessado por batatas. Afinal, qual homem não precisa de batatas em sua dieta? Então eu vi que estava esquecendo como se plantam as batatas e descobri que um grupo de plantadores havia escrito o jeito certo de plantar. Eu logo peguei esse manual e comecei a plantar, acrescentando o modo como já estava acostumado. Aquele jeitinho tradicional que eu já tinha de plantar.
Eu fiquei bastante feliz plantando essas batatas, até que um dia uma outra pessoa se mudou para minha rua e também começou a plantar batatas.  Nós não nos demos muito bem. Não... Ele não admitia o fato de eu não usar só o manual para plantar as batatas. Achava terrível o fato de eu usar aquelas mesmas manias de quando eu nem conhecia o manual. Discutimos bastante, mas a situação não mudou muito.
Tanto ele quanto eu plantávamos nossas batatas. As pessoas ficavam felizes com essas batatas e vinham sempre comprar mais. Um homem sempre precisa de batatas. Não faz bem não tê-las na mesa de jantar ou do almoço. Assim plantávamos muitas batatas e ganhávamos muito dinheiro com elas. Era de fato um bom negócio. Deixávamos todos felizes e ainda tínhamos um bom lucro. As batatas não vendidas, nós entregávamos como doação para quem não podia comprar. Não eram das melhores, mas ajudava.
Outros plantadores de batata começaram surgir na rua e o negócio ficou competitivo. Havia um que não gostava nem de mim nem do meu vizinho. Ele ficava no fim da rua e fazia propaganda dizendo que eu e o meu vizinho havíamos até começado a plantar batatas do jeito certo, porém acabamos com a tradição de tudo. Parecia que o jeito dele era o melhor. Eu até gostei das idéias dele, mas havia uns filhos dele que eram muito agressivos no negócio.
Todos os plantadores de batata continuaram plantando durante muito tempo, até aparecer um outro vizinho, aquele cara da casa branca de muro alto. Ele não plantava batatas e nem as comprava. Dizia que era bobagem. Claro que a reação dos plantadores não foi boa. Nem do pessoal acostumado a comparar. Tivemos que aumentar a propaganda para convencer as pessoas de que em breve aquele novo vizinho teria carência de vitaminas e que a família dele não ficaria bem se não comesse bastante batatas. Acho que teve até gente torcendo para eles passarem mal logo e cada vez que o carro saía, sempre surgiam boatos de que era porque o filho deles estava mal e tinha ido para o hospital por causa da má alimentação.
Um dia esse estranho sofreu um acidente de carro. Meu vizinho, aquele do manual, logo disse que era porque o sujeito não comia batatas e não estava enxergando direito. Não se pode enxergar bem sem comer batatas. Todos sabem que elas possuem vitaminas essenciais para a visão. A rua inteira falou e comentou sobre o acidente e o consumo de batatas até aumentou um pouco. Eu gostei. Mais dinheiro no bolso. Era algo em que todos concordávamos, qualquer um dos produtores.
Aconteceu um dia que meu vizinho, esse mesmo do manual, começou a notar que no inverno havia muita gente ficando resfriada. Ele logo teve uma boa idéia. Deu caldo de batatas para todas essas pessoas e elas adoraram. Dentro de sete dias o resfriado sumiu! Bastava um bom agasalho e caldo de batatas para logo se sentir melhor! Tinha gente que nem nunca ficava resfriado. Eu não quis tomar nem vender caldo de batatas, talvez seja por isso que minha clientela continuou. Mas não me importei.
Um tempo depois, meu vizinho... é... é o vizinho do manual... sofreu um acidente e carro no mesmo lugar daquele estranho vizinho que não comia batatas. Todos temeram pela vida dele, mas quando voltou rindo do hospital, disse que foi por pouco que não morreu. Se não tivesse comido muitas batatas, ele não teria visto o problema a tempo e teria partido dessa para melhor, com certeza. Dei de ombros e continuei meu trabalho. Até concordei. As batatas são ótimas para a visão. Com elas você enxerga melhor o caminho.
Aí veio a minha vez de sofrer o acidente naquele mesmo lugar. Maldição! Meu carro deu perda total. Azar o meu por isso, mas pelo menos eu tinha seguro. Eu sempre comi batatas, mas não vi o buraco que havia na pista. Era noite e eu voltava cansado para casa. Depois que sai do hospital, o pessoal da perícia falou que eu já devia ser o centésimo a cair naquele buraco. Não havia como vê-lo. Sorte que ninguém havia morrido. Todo mundo saia daquele jeito que eu saí, sem carro e bastante machucado, mas felizmente nenhuma fatalidade ocorrera até hoje.
Voltei para casa e, não sei por que, parei de plantar as batatas. Comparava do meu vizinho, do sujeito lá da frente ou até ia jantar na casa do estranho que não comia batatas. Passei minha plantação para outra pessoa e ela fez sucesso com a mesma. Eu guardei meu manual para ler de vez em quando, porque sempre gostei de ler sobre batatas, no entanto notei que estava comendo batatas apenas por comer e que elas ao me faziam falta mais. O sujeito estranho lá, que se tornou meu amigo, disse que nunca sentira falta. Decidi parar e fiquei um bom tempo sem comer batatas.
Foi depois de algum tempo que decidi cultivar apenas um pouco de batata para mim mesmo. Nada de vender ou de dar batatas para os outros. Dividia chamando-os para jantar em casa, porque aproveitava para uma boa conversa e assim eles poderiam experimentar a mesma batata que eu colocava na minha mesa.
E foi assim que decidi não ser mais um mercador de batatas. Minhas propriedades não são tão grandes quanto as dos meus vizinhos, nem aparece tanta gente na minha casa mais. Mas eu estou feliz com minha decisão e convivo bem com o fato de ter uma opinião de que não preciso comparar batatas.
Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 01/09/2006
Código do texto: T230554

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Sobre o autor
Shaftiel
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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