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TIJOLAR

Eu odeio telefone celular.

Eu tenho, mas o meu funciona como uma espécie de Pager; eu vejo quem me ligou, e ligo de volta. Do telefone fixo, claro, pois a ligação é mais barata. Se bem que está ficando cada vez mais cara, e daqui a pouco será mais barato (e agradável) visitar a pessoa e conversar pessoalmente.

Um minuto de uma chamada de celular custa mais de R$ 1,00. Pode parecer pouco, mas só esse valor já é suficiente para comprar uma dúzia de ovos. Se você conversar por meia hora, será possível comprar uns 6 pacotes de 5 quilos de arroz.

Algumas pessoas dirão que há pacotes promocionais em que o minuto sai mais barato. Pacotes do tipo: “pague R$ 200,00 e fale 500 minutos” (0,40 por minuto); nada mais do que uma estratégia da operadora para aumentar seus lucros. Imaginem se todo cliente gastasse R$ 200,00 com o celular....

A Anatel (agência governamental que regula o serviço de telefonia) estipula que em 2008 será possível trocar de operadora, sem alteração do número do telefone. Talvez estimule um pouco a concorrência e faça com que as operadoras baixem as tarifas.

Há celulares de todos os valores também. Alguns custam, dependendo da promoção, R$ 1,00 (com contas mensais altas, para justificar o valor baixo do aparelho). Mas há aqueles de R$ 1000,00, R$ 2000,00 com radar e sensor infravermelho embutido. Sei que na Europa e Estados Unidos, onde há consumidores conscientes, celulares muito mais sofisticados que os daqui são vendidos a literalmente preço de banana (a banana daqui, que é barata, e não a de lá, que é cara). A receita das operadoras é proveniente das tarifas (também muito mais baixas que aqui), não do aparelho.

Porém, tenho que reconhecer os avanços que a popularidade do celular proporcionou ao nosso país. Há poucos anos, o número de celulares superou o número de telefones fixos. Devido a forte demanda interna (mais de 90 milhões comercializados), aumentamos nossa produtividade mediante grande escala de produção, e nos tornamos plataforma exportadora do produto (importamos os componentes, mas tudo bem). Recebemos investimentos maciços de todas as multinacionais do setor, que conseqüentemente gerou milhares de emprego e desenvolvimento para o nosso Brasil varonil.

Mas o que me incomoda é:

Uma pessoa “namorar” pelo telefone celular (celular é pra oi, tchau, te encontro as 9, etc). Já disse que namoro em celular, ou virtual, ou em chat é uma chatice!...neste caso, uma “Celulice!”....É bem melhor pessoalmente.

Uma pessoa dormir com o celular ao lado do travesseiro, e ser acordada pelos sons que o “bichinho virtual” emite quando recebe mensagem, ligação não atendida, foto da sogra etc.
Lembram do bichinho virtual? Aquele que você tinha que dar comida, brincar, etc, senão ele morria? O celular é igual, mas ao invés de morrer ele fica emitindo sons enquanto você não mexe com ele...

E os toques? Agh....Missão Impossível, 007, Indiana Jones, Dormi na Praça, Polícia, Mulher Gemendo.......Sem considerar que tocam nos momentos menos apropriados. Caro leitor, eu odeio regras de etiqueta, mas se você for ao Teatro, Cinema, Reunião, ou qualquer outro evento em que haja outras pessoas acompanhando, desliga a porcaria do celular, entendido? Não tem nada mais desagradável do que uma palestra ser interrompida por um toque “plantão da globo”...se eu fosse o palestrante, perguntaria ao dono do celular: - Quem morreu???

Uma vez fui à praia e havia dois caras na beira do mar, molhando os pés na água, com o celular pendurado na SUNGA!!!  Primeiro: homem que é homem não usa sungas. Segundo, se o celular vibrar poderá aguçar a homossexualidade das meninas, já que está próximo do lugar onde podem enfiar a antena....

Tenho um celular que quando toca também vibra. Não sei como desativar a função. E o manual é muito chato e extenso para eu perder meus preciosos minutos procurando.

Meu histórico de celulares comprados é péssimo: Primeiro comprei um que era impossível fazer coisas elementares como anotar um número na agenda; tinha que recarregar todo dia; Comprei meu segundo; desliga sozinho no meio da chamada; desliga quando eu fecho o flip sem delicadeza (felizmente não sou nada delicado); adquiri alguns sons polifônicos que não tem nada a ver com a versão original da música; resumindo, quando comprar o meu próximo, vou atirar o atual na parede (um de meus sonhos).

Outra vez estava em um restaurante com minha família.Conversávamos, empanturrávamos, bebíamos e gargalhávamos. Minha irmã me mostrou uma mesa logo à frente, cheio de japoneses; cada um retirou do bolso um celular mais sofisticado que o outro. Se eu não me engano, em um dos modelos havia detector de flatulências, ouvi um deles dizer. Mas não era o avanço tecnológico dos aparelhos que chamou a atenção de minha irmã, mas sim o comportamento dos indivíduos: estavam todos sentados, calados e fuçando em seu próprio celular. (obs: nada contra is japoneses; admiro sua cultura e determinação).

Sei que o celular é importante.  Numa emergência, nada mais prático. A comunicação é fundamental nos dias de hoje. Mas me desculpe: câmera, ligação por voz, blue-tooth (que porra pe essa é dente azul???), musiquinha e joguinhos não servem pra nada. Só servem para aumentar a quantidade de folhas do manual e dificultar o manuseio para pessoas práticas como eu. Aliás, você que é perito em decifrar hieroglíficos de manuais de celular, poderia colocar um toque mais discreto no período de trabalho, e deixar os toques irreverentes para momentos mais oportunos. Outra serventia do celular chama-se status: “Ei todo mundo, estou mexendo no meu celular para mostrar que eu sou bom e comprei um novo”. Vivi mais de 20 anos sem celular, e acho que não morreria se não fosse a invenção. Criança de 6 anos com celular? Não sabe nem falar direito...compra uma barbie pra ela, ou um carrinho pra ele. Que pena que não existem mais bichinhos virtuais. Por mais idiotas que fossem, pelo menos você comprava uma vez e não gastava mais nada. Os bichinhos virtuais modernos precisam de uma quantia mensal para “recarregar”.

Os modelos mais antigos, devido ao peso e tamanho, são chamados por algumas pessoas de “tijolar”. Quando eu comprar um celular novo, não por causa de status, mas porque a porcaria do meu não funciona direito, pegarei um tijolo e jogarei em cima de meu atual telefone. Isso sim é o que eu chamo de “TIJOLAR”.

ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 01/09/2006
Reeditado em 01/09/2006
Código do texto: T230642

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
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