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H I S T O R I N H A ...




... que teria acontecido há menos de um século.
Sertanistas, indigenistas, antropólogos e outros de variadas capacidades, em missão de aculturação de índios nos confins da Amazônia, embrenharam-se na Hiléia brasileira (termo criado por Humboldt). Muito tempo, peripécias e aventuras já haviam passado quando, certo dia, depararam-se com uma tribo vivendo em estado extremamente primitivo. Aos olhos dos civilizados missionários, aquela aborígene cultura beirava a incredulidade. Óbvio está que se comparada à dos incursionistas.
Perceberam que não seria nada fácil a missão de apresentar a civilização àquele povo. Passado algum tempo e já conseguindo a comunicação oral com os índios,  tentaram modificar alguns hábitos. A tarefa mais penosa foi a de os convencer da existência e necessidade do trabalho regular. Ora, até então os índios comiam se sentiam fome, bebiam se sentiam sede, dormiam se sentiam sono e assim viviam. Convencê-los de que deveriam trabalhar parecia missão impossível. E mais, de que deveriam descansar após uma jornada de trabalho. Igualmente essa situação, o descansar, os índios ignoravam. Para enfatizar esses detalhes, foi ensinado aos índios os termos vadio e vagabundo, que é dado àqueles que não exercem nenhuma atividade de trabalho regular.
Inúmeros e imensos eram os detalhes a serem repassados que decidiram levar o chefe da tribo até uma cidade civilizada a fim de que este pudesse observar certas minudências da nova cultura. Assim fizeram. Foram para uma cidade grande à beira-mar. A época era de verão. Pessoas caminhando para lá e para cá deixavam meio tonto o índio. Eis que este avista um veranista deitado sob um guarda-sol. Apontando, brada o silvícola: vagabundo! Os pesquisadores tentavam dissuadir o índio, pretendendo explicar-lhe que aquele homem estava de férias (o que ainda não havia sido ensinado). Mas qual, o índio ficou irredutível, e repetia: vadio e  vagabundo.
Aceleremos a máquina do tempo e fiquemos nos dias de hoje. Quando uma pessoa está de férias, deitada sob um guarda-sol, à beira-mar, naquele momento ela está em estado ocioso; ela está a preguiçar. Num exagero (para a nossa cultura), ela está vagabundeando. Bueno, mas então aquele índio da historinha não estava de todo errado. Ou melhor, a observação dele foi precisa.
O que fez o homem e a civilização! Se índios ainda fôssemos teríamos “férias” doze meses por ano. E ninguém seria vadio ou vagabundo. Tampouco haveria desempregados. É uma historinha maluca, mas enfim...
 
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 02/09/2006
Código do texto: T230814
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
163 textos (23331 leituras)
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Cláudio Pinto de Sá