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Experiências pós infarto - parte I

Neste texto há muitos nomes, foi a forma que encontrei de agradecer a todos que me ajudaram a chegar onde estou.

Vinte e sete de dezembro de dois mil e dois, a despertadora claridade do sol que através da janela entre aberta se anunciava, interrompeu meu sono. Esfreguei os olhos com as costas de meus finos dedos e ainda deitado na cama lembrei-me de quanto especial era aquele dia, porém como é habitual a qualquer um que já não esteja informado sobre o porvir, não imaginava que acontecimentos tornariam seu entardecer inesquecível.
No decorrer do mesmo, minha mulher e eu cumprimos as tarefas a que nos dispusemos para tornar o acontecimento do dia muito agradável. Chegando o momento de começar a cantar o “Parabéns pra Você” para meu filho André de dois anos de idade, até então o acontecimento desejado, meus olhos embaraçaram, senti uma dor insuportável que pressionava minhas entranhas, parecia haver uma dilatação peitoral, em poucos segundos a respiração estava comprometida, nem sei o que pensei apenas gritei por ajuda até que meu maxilar inferior travou. Minha mulher Silvia e meu cunhado Eduardo que acabara de chegar para a festa, me levaram direto para o Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
A caminho do hospital, deitado no banco de trás do carro, eu me dobrava em dores e por mais que desejasse voar até o destino, estava limitado ao transporte terrestre que se sujeitava aos comandos esforçados porém humanos de meu cunhado e às luzes cor de sangue dos semáforos. Flashes de situações como uma ambulância gritando na avenida, macas sendo montadas e dirigidas por anjos de vestes brancas faziam se presente neste momento. Por hora não descreverei detalhes de tal sofrimento.
Chegando lá me fizeram um Procedimento de Resgate e o resultado foi minha sobrevivência e a introdução de quatro Stents nas artérias do coração.
Lembro das palavras do Dr. Salvador A.B.Cristóvão — Rapaz você acredita em Deus?
— O que? — Respondi meio atordoado.
— Você é cristão, espírita, crê em algo superior? — Continuou ele. — Respondi — Sim, sim creio em Deus.
— Então está tudo bem. — Finalizou ele.
Ouvindo isto e mais as congratulações que a equipe recebia, me dei conta do quão agravante era minha situação.
Não pude estar presente no aniversário de meu filho e passei o Ano Novo de 2003 longe da minha família acamado na UTI.
Após o período de recuperação e por indicação de minha cardiologista a Dra. Janice N. Caron, comecei a participar do Programa de Reabilitação do INCOR.
Com a minha persistência e a competência da equipe da Dras. Jane e Patrícia e os Personal Trainers Edu, Soraya e Elisa, minha recuperação foi tida como fantástica ao ponto de fazer parte de uma matéria da revista Saúde Especial Colesterol em setembro de 2004.
Como tudo caminhava bem, meu vizinho e amigo Dr. Ernani Gomes (que é corredor) para a minha surpresa fez nossa inscrição na prova de 7,5K dos 420 Anos do Ipiranga. Confesso que mesmo acompanhado comecei com muito medo, mas ao avistar em uma curva a pequenina e preciosa torcida Silvia, Matheus e André (minha mulher e meus dois filhos) recebi a coragem que me faltava e completei a prova em 01h04min. Levei pra casa a primeira medalha oficial que recebi na vida.
Depois disso comecei a treinar junto com o então agora mas amigo do que vizinho Ernani lá na pista do Museu do Ipiranga, foi quando ele comentou sobre as inúmeras corridas de rua. Participei da 6,5K Abertura do Circuito 2005 e impressionado com a organização e a alegria contagiante resolvi fazer das corridas de rua meu ideal esportivo e válvula reguladora de meu stress diário. Depois fiz os 6K do Exército Brasileiro em 00h36min: 15hs e 5K Nike em 00h29min: 28hs.
E assim vem sendo.
De todas as corridas, levei medalhas para casa e sempre ouço a repetida e doce frase de meu filho André.
– Papi posso ver a medalha que você ganhou?
No Brasil, país onde pessoas que assim como eu não possuem muita habilidade com bola acabam não tendo incentivos. Afirmo que as corridas de rua criam oportunidades. Pobres e ricos anônimos tornam-se ilustres afortunados do desafio, do cansaço de cada quilometro medicinal e do regozijo da chegada, seja ela em qualquer classificação sempre vitoriosa.

* Foi matéria da revista Saúde Especial Colesterol, da Abril Cultural e Depoimento "Minha história" no site da CORPORE www.copore.com.br
Hubenz Gaspar Filho
Enviado por Hubenz Gaspar Filho em 02/09/2006
Código do texto: T231336
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Sobre o autor
Hubenz Gaspar Filho
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
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