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Última Tragada

Rosa Pena

 

 

Acho que teríamos nos apaixonado se tivéssemos o tempo certo para isso. Acho até que teríamos nos casado, tido um casal de filhos e já estaríamos desapaixonados. Se assim fosse, hoje você não estaria de olho nos botões da minha blusa, nem eu querendo saber o sabor de seus lábios. Percebe que viramos a noite conversando, sem olhar o relógio e sem sentir fome? Reparou que me ofereceu seu casaco e quase me deu um abraço quando me envolveu nele? Fiquei aquecida com o gesto, bem mais por ter compreendido que você me preferia nua e sua nesse momento. Será que esses nossos olhares cobertos de desejos, essas nossas mãos cheias de cuidados só acontecem porque não tivemos tempo de nos apaixonar, nem de ter os tais dois filhos? Sabe, se tivéssemos nos apaixonado e casado, quem estaria com essa blusinha decotada seria nossa caçula e o nosso primogênito, com seu casaco tão fofo. Nossos olhos estariam olhando somente para eles e nós quatro, na mais absoluta mudez, em uma sólida mesa, fixados no relógio ou na TV, esperando a refeição com muita ou pouca fome.

 

É hora da sagrada união, não?

 

Acho realmente que teríamos nos apaixonado, pois sua pele me seduz e sua voz grossa e gasta me encanta, mas não tivemos tempo para isso, não ouvi a agudez adolescente dela, não vi seus pêlos crescentes, não senti ciúmes de seu casaco aquecendo outros corpos. Foram outros e outras que acenderam nossos cigarros e nos tragaram, apesar de — percebo hoje — que os meus foram tragados bem pouco, ficaram queimando-se nos cinzeiros forasteiros, até se apagarem solitários, com suas enormes cinzas penduradas. Acho que teríamos nos fumado até a guimba se tivéssemos tempo para nos apaixonar, mas ficou tarde para nós e atualmente cigarros fazem tão mal, os filtros são imensos, cheios de cautela, prioridade do Ministério da Saúde, que odeia esse mistério. Agora é o momento das crianças que não tivemos, esses adolescentes que vemos se aquecendo nas ruas, conversando, esquecidos da fome. É deles a vez de se envolver em blusinhas e casacos, de se seduzir por peles nuas, sem mudez, sem timidez, gritinhos com a voz tinindo como a que já tivemos.

 

Será que eles se fumam, tragando-se intimamente?

 

A nossa vez ficou em imaginar que certamente teríamos nos apaixonado no primeiro encontro, nos aspirado com sofreguidão, pulmão e coração nublados na fumaça de devaneios, mas também, provavelmente, teríamos nos desapaixonado no penúltimo encontro, o último é sempre na partilha, até dos olhos, na frente de algum juiz que chamam da paz. Nossa vez ficou no faz-de-conta de como seria lindo viver essa emoção, mas em compensação nos poupamos: não ficamos caolhos, nem adquirimos enfisemas amorosos.

 

Seguimos sem filhos, sem abraços, sem laços, mas com o sonho de como nós seríamos se tivéssemos tempo para nos apaixonar. Sinto raiva ou agradeço ao calendário por ter sido mais ligeiro que o Cupido?

 

Juro que faz um bom tempo que parei de fumar, mas de repente senti uma vontade louca de tragar-lhe intensamente.

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 03/09/2006
Reeditado em 30/08/2008
Código do texto: T231595
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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