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Dialética de um Zé Mané

Mais uma noite fria de sexta-feira e o Zé procura algo que faça sua vida ser útil passeando pelas ruas sem graça do centro de Diadema/SP. – Pausa – A diferença entre viver e existir é justamente ser útil, para algo ou alguém, durante nossa passagem terrestre – Então continuando a leitura da nossa crônica de hoje.

Resolvo apreciar uma vitrine na qual estava escrito numa plaqueta de 3m x 50cm: “Não seja um Zé mané aproveite nossa promoção, liquidação de inverno!!! – conjunto de moletons por apenas R$ 88,99”. Putz! Não seja um Zé mané meu? Ofendeu todos os milhares de Zes que passaram e leram aquela vitrine como eu.

Fiquei perturbado de inicio, fiz tudo que era possível para não me estressar (dificilmente fico assim), até que chega um casal de namorados e param do meu lado esquerdo, consequentemente também lêem a plaqueta e começam a rir com a brincadeira do bendito imbecil que escrevera ali.
Não pensei muito, entrei na loja e uma moça gordinha e sorridente me atende:

“No que posso ser útil senhor?”
Oi, boa noite, moça por gentileza, preciso esclarecer uma dúvida?
“Pois não!”
Quem escreve nas placas das vitrines desta loja?
“O estagiário. Porque ele cometeu algum erro de gramática grave?”
Ah não, não é isso não. Qual é o nome dele?
“Porque deseja saber isso?”
Oras porque? Porque ele simplesmente escreveu: “Não seja um Zé Mané aproveite nossa promoção...”
E o que tem demais isso senhor?
Fique sabendo que me chamo Zé! José Luís ora essa, e me senti ofendido ao ler tal brincadeira!
“Sinto muito senhor, mas as idéias de publicidade não são dos nossos estagiários, eles apenas cumprem ordens de seus superiores”.
E de quem é essa idéia absurda?

Nisso entra o gerente da loja um pouco apressado por ter sido informado por outra atendente da minha indignada presença na loja
“Boa tarde senhor o que está havendo? Algum problema no atendimento?”
Não caríssimo, temos um problema de discriminação, falta de bom senso e desrespeito com as pessoas aqui nesta loja
“Não entendi Senhor?”
Por favor venha até aqui fora e leia o conteúdo desta plaqueta.

Ele repete a frase e pergunta:
“Qual é o problema com essa frase?”
Ah você também não sabe não é mesmo? Foi o senhor que deu a idéia para escrever esse absurdo aqui na entrada da loja? Onde todos passam e lêem as besteiras que escreve?
“Senhor como assim?”
Ande responda, foi ou não foi?
“Sim foi eu mesmo, mas o que há de errado com essa frase?”
Por favor desculpe-me, ainda não nos apresentamos, diga-me como é o seu nome?
“André”
Ok. Muito bem senhor André. Veja isso agora.

Tirei um canetão preto da minha bolsa que sempre uso em palestras e explicações com lousa para os colegas da equipe onde trabalho. E reescrevi sobre a frase:
– Não seja um ANDRÉ Mané aproveite nossa promoção, liquidação de inverno!!!... –
Agora tenho certeza que sabe onde está o problema
“Mas senhor, não tive a intenção de ofender, isso é uma expressão popular”
Claro que não! Você jamais terá tal idéia, mas repassará no subconsciente das pessoas, e possivelmente, apenas os atingidos pela expressão que chamou de popular, sofrerá pela perpetuação da expressão. Do contrário quando coloquei seu nome sua reação e resposta foram automáticos, o que comprova meu primeiro argumento que fere a honra dos Zes que lêem isso.
“Tá certo José, você venceu vou remover a expressão. Mas o que ganhou com isso?”

Não ganhei nada, mas consegui ser útil, já que a partir de agora nenhum outro Zé, vai se sentir mal ao passar na frente de sua loja e ler está plaqueta. Inclusive você é que deixou de perder clientes com meu nome, depois que aceitou minha alteração.
“Tudo bem, como prova de que não há ressentimentos pode entrar na loja e escolher uma peça do nosso mostruário”
Legal! Agora eu me sentia valorizado e duplamente recompensado. Escolhi um terno bege sem listras e sai de lá com ele vestido por causa da garoa fria que caia do lado de fora da loja, um pouquinho mais elegante e aquecido andando pelas ruas sem graça do centro de Diadema.
José Luís de Freitas
Enviado por José Luís de Freitas em 03/09/2006
Reeditado em 03/09/2006
Código do texto: T231871

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Sobre o autor
José Luís de Freitas
Diadema - São Paulo - Brasil, 32 anos
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