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O JOGO DA VIDA

                                  Primeiro você me azucrina
                                       Me entorta a cabeça,
                       Me bota na boca um bocado de mel...”


Não há na vida nada mais desafiador que uma conquista. Neste processo, envolvem-se egos, alter e super egos. As pessoas se expõem e se escondem em um jogo de interesses nada mútuos.  Há uma necessidade de provar a si e ao outro, quando não a outros, que é possível, não se encantar, mas encantar alguém.

O jogo da sedução acontece, então, renovado a cada instante, a cada contato, a cada olhar, a cada troca de mensagens, sejam estas através de bilhetes, cartinhas, recados pelo programa de rádio, ou, de forma mais moderna, via internet. O quê se expõe, nessas trocas de informações, sutis ou não, é  um jogo em que, não raramente, o blefe é a arma mais forte.

Entretanto, não há verdade que não venha à tona. E, quando estas emergem, muitas vezes nos surpreendem, pois costumam ser mais agradáveis que a mentira que se orquestrou. O sonho, a ilusão, a construção de um personagem pode encantar por breves instantes, mas sempre deixam o rastro do medo. Medo de que a verdade apareça. Medo de perder a batalha. Medo da desilusão. Da vergonha. Da solidão após o efêmero de uma relação calcada em inverdades. Assim, são agradáveis estes instantes, mas, como não são solidificados, são temidos e temerosos.

Há, é verdade, pessoas que preferem esta ansiedade, esta tensão. Temem mostrar a si mesmos e não causar o impacto desejado. Mas, na verdade, geralmente as pessoas buscam companhia. Por mais que se transfigurem para conquistar, gostariam de uma relação mais sólida. Porque se sabe que, assim como se trai, pode-se ser traído.

Mergulha-se num jogo de dúvidas, incertezas, escusas... e, via de regra, vê-se preso nas mesmas teias. Muito regularmente, após a conquista, percebe-se preso. Sem saída. E o problema é que as verdades, mais dia, menos dia, terão que ser ditas. E o estrago será incalculável.

Também, como se trata de seres humanos, de acordo com o mistério da vida, pode acontecer de mostrar-se para alguém que, na verdade, quer apenas se divertir. E aí, com o passar do tempo, descobrir-se preso em uma rede tênue. Apaixonado. Mas não correspondido. A vida é assim: não há regras, não há padrão.

As pessoas vivem para se exibir. De forma mais intensa ou não, há uma auto-exposição. Não importa se outros serão feridos. Raramente as pessoas não se colocam no lugar de outrem para avaliar a profundidade de seu golpe. Brinca-se com as emoções alheias como se se tratasse de bonecos. Conquista-se para vangloriar-se, para outros ou para si mesmos, do feito. E, após, ter o prazer de ferir, de mostrar que é bom no jogo: “se eu tô te dando linha / é pra depois te abandonar...”.

A rapidez da vida, mais clara no sistema de comunicação atual, expõe muito claramente esta situação. Os programas de relacionamento virtuais, como orkut, msn e outros, a despeito de sua validade, são exemplos reais e inquestionáveis da construção de personagens. Veja-se o exemplo do filme ”Closer”.

O problema é que, como já se disse, a vida é incontrolável. E “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Pode-se ver-se como vítima no mesmo jogo, assim como passar de protagonista a alvo do mesmo. Ao longo de uma relação pessoal, mesmo que o objetivo seja o de ludibriar, pode-se ver irremediavelmente preso nas armadilhas do cupido.

Inicialmente, em um contato pessoal, pode-se não perceber o encanto alheio e avaliar, no outro, apenas uma inofensiva vítima do jogo que se inicia. Mas, como o vento que passa e traz novidades, levando a rotina e os propósitos anteriores, o rumo das coisas pode se alterar. Afinal, “vento que venta lá também venta cá”. E aí é hora de provar do próprio veneno.

E, depois do estrago causado, fica muito difícil a retificação. Pode acontecer até mesmo a mágoa, pois facilmente se esquece de seus atos anteriores, de sua intenção ao iniciar um relacionamento. Vem a cobrança daquilo que não foi doado. E, como o contato foi intenso, a relação se solidificou. Mas sobre terreno frágil. E não se admite a derrota. Afinal, não foi apenas uma derrota, mas uma virada de jogo. Dói mais.

Assim é o jogo. Ora favorece a um, ora a outro. A saída pode ser aliar-se ao contendor, transformando o adversário em parceiro. Na luta não contra, mas a favor do amor.
                                                 03/09/06





Pabinha
Enviado por Pabinha em 03/09/2006
Reeditado em 14/01/2007
Código do texto: T232016
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Sobre o autor
Pabinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
32 textos (4979 leituras)
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