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NO TRANCO


Duas mãos... Na ida, o motor começa a ratear, um som estranho atravessa a orquestra e desafina... No retorno, o carro morre, o volante trava e o carro desliza até o meio-fio. Atravessado na movimentada pista, o carro é mais um estorvo para quem vai e vem no final do expediente de sexta-feira.

A motorista sai do carro desesperada, gesticula, pede ajuda, mas os carros passam indiferentes, alguns, mais estressados, arriscam um xingamento. Depois de dar voltas com barata tonta, encontra o empoeirado triângulo e se angustia com a possibilidade de causar um acidente. Dia chuvoso, veículo parado próximo de uma curva, trânsito intenso... Reconhece todas as circunstâncias para uma grave ocorrência, lembra-se do recente desastre na estrada de Curitiba a Joinville, mas está impossibilitada de reverter a situação.

A mulher liga para a assistência técnica do seguro e aguarda sem previsão o atendimento. Uma mensagem com fundo musical, “sua chamada está sendo encaminhada para um dos nossos atendentes”, repete-se num congestionamento virtual. Diante dos sustos, da chuva e do risco, a mulher desiste do socorro. Pensa em rezar, mas esqueceu a oração. Quem socorre os carros afogados?

Depois de quase meia hora de imensa solidão e aflição, um carro pára. Uma jovem sai com o ânimo solidário: “Se for pneu eu troco...” A mulher se assusta com tanta disposição. Não é pneu, o carro parou de repente e a direção travou.

Várias tentativas. As duas pensam em desistir, buscar auxílio longe dos “zero oitocentos”, porém na última virada de chave, mais por desencargo de consciência do que esperança, o carro pega. A motorista dirige com o coração cadenciado com o barulho do motor vacilante. Busca o canto da pista, em cada freada sente a proximidade da tragédia, mas consegue chegar ao posto mais próximo escoltada pelo carro da jovem desconhecida.
 
As apresentações são feitas debruçadas sobre o capô aberto. A mulher ainda sente o medo da aproximação dos carros apressados enquanto a jovem compartilha suas experiências com carros velhos. O frentista se aproxima. Os três tentam desvendar o problema: óleo, velas, correia dentada, radiador... O carro dá os últimos sinais de vida e ali adormece até ser despertado na oficina.

De repente, o carro pára, a multidão continua indiferente, atropelada pelos próprios interesses, a assistência técnica não está preparada para urgências...  Até que surge uma jovem que consegue resgatar o olhar empático e perceber a angústia da motorista de um carro atravessado na pista. Transpõe a sua rotina para resguardar o conceito de solidariedade.


Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 04/09/2006
Reeditado em 04/09/2006
Código do texto: T232397
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (790070 leituras)
2 áudios (1258 audições)
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Helena Sut

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