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HISTÓRIAS QUE EMOCIONAM

Naquele Sábado, começo de tarde, sob um sol fortíssimo próprio do mês de agosto descia a Rua 77 do Centro de Goiânia, fazendo a entrega dos últimos objetos.
Logo que saí de uma loja de conserto de rádio e TV, avistei uma senhora recostada na janela de sua casa.
Entreguei correspondências em mais duas casas e logo que aproximei de sua residência percebi que havia correspondência exatamente para ela. Cheguei ao portão e avisei:
- Tem carta para a senhora.  Ela me pergunta:
- De onde vem?  Vê prá mim, por favor. Estou sem óculos para perto. Deve ser o extrato da minha poupança. Olha o nome do remetente. Que será isto minha Nossa Senhora? Ela cada vez mais ansiosa perguntou:
- Quem será?
 - Me deixa ver o carimbo... É de Redenção do Pará.
- Ah! Deve ser do meu filho que não vejo há anos. Mas que estranho. Meu filho tem uma letra muito bonita. Era o orgulho das professoras do Grupo Escolar Modelo. Isto sem falar do xodó com o meu velho, que o mimava muito, até o dia em que brigaram.
- Dona carteira, é do Alfredo?
- Não senhora, o nome não é este. A caligrafia é de criança. Com o coração nas mãos, ela exclama:
- Meu Deus! Vou buscar meus óculos.
E saiu correndo pela casa, procurando os óculos, que não conseguia encontrar, mesmo com a ajuda da Das Dores, sua empregada. (Mais tarde pude saber o nome daquela senhora baixinha). Esta, como não sabia nem ler ou escrever, não podia ajudar muito com a carta. De repente ela põe a cabeça prá fora e grita:
-Dona Carteira entra aqui!
-Não, não posso, respondi. Toma aqui a carta da senhora.
-Não. Peraí. “Das Dor” cadê meu óculos? Será que não estão no meio da linha de crochê? Pega lá prá mim! Senta aí dona carteira. Como é que a senhora chama?
-Maria das Neves. Mas a senhora me dá licença que eu tenho que acabar de entregar as cartas. O Correio é muito rigoroso com horário.
-Não, pode deixar que eu falo com o seu patrão.  Como é que ele chama?
-João Ramos.
-E ele é bravo?
-De forma alguma. O problema é que eu tenho que continuar minha tarefa.
Do fundo da casa, chega a “Das Dor”, trazendo os óculos da senhora que era conhecida como “Dona Santinha”.
Com mãos trêmulas, devido à emoção, aquela senhora pega o envelope e lê onde lhe indiquei a localização do remetente: Luciano Santos e Carlos Eduardo dos Santos Neto (o mesmo nome do falecido marido daquela senhora). Com a voz embargada, ela começou a leitura da carta. Eu, também tomada de emoção, fiquei ali, parada, sem saber como sair.
“Querida Vovó. Tudo bem com a senhora?”
Os óculos embaçados dificultavam a continuação da leitura. “Das Dor”, solícita, tentando quebrar um pouco o clima, ofereceu água com açúcar para Dona Santinha, que prontamente recusou. A única coisa interessante naquele instante para ela era a carta que lhe fora entregue por mim.
“O papai é este gordo que está na foto”. Aí ela viu que tinha mais uns retratos e uma folha de papel. Abriu. Era de seu filho Alfredo, pai das crianças.
“Mãe, a sua benção”... Iniciava a carta do Alfredo.
Só então percebendo que eu ainda me encontrava ali, como que presa por uma teia invisível, Dona Santinha olhou e viu que eu, de sacola no ombro chorava partilhando de sua emoção, que naquele instante passava a ser também minha, afinal, fora eu quem causara tudo aquilo ao lhe entregar aquela carta.
Fui saindo, enxugando as lágrimas que teimavam em cair, quando a senhora me alcançou no portão.
- Maria Das Neves, você hoje vai almoçar com a gente.
- De jeito nenhum. Eu tenho que ir.
- Não senhora. Já está pronto e hoje eu não aceito recusas. A “Das Dor” fez arroz com pequi. A senhora gosta?
- Gosto bastante, mas, eu tenho que ir.
Minha resistência foi quebrada, quando aquela emocionada senhora, comentou comigo:
-Como é que eu vou poder agradecer a pessoa que me trouxe uma notícia do meu filho que não vejo há anos? Que me falou da existência de dois netos? Possibilitou-me obter o endereço desse filho e me fez saber que eles passarão o Natal comigo?
Não tinha como recusar o compartilhamento daquela alegria e acima de tudo, meu lado maternal falando mais alto, com a voz quase não saindo de emoção virei para ela e só tive condições de perguntar-lhe (disfarçando as lágrimas):
-Onde eu deixo a sacola e lavo as mãos?
Hoje, passados alguns anos, somos ótimas amigas. Seus netos também me chamam de vó, e eu fico muito feliz em saber que depois de tantos anos, a amizade feita naquela época, perdure até hoje.
Nevinha/19/06/2010
Nevinha
Enviado por Nevinha em 19/06/2010
Reeditado em 10/06/2012
Código do texto: T2328620

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Sobre a autora
Nevinha
Goiânia - Goiás - Brasil
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