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TERRITÓRIO OCUPADO


Ele chegou ao anoitecer. Tinha as feições assustadas e gestos aflitos. Suas palavras acenderam minha compaixão. Jantou, bebeu vinho tinto, intercalou o cotidiano com indiscretas confissões... Embriagado, adormeceu no meu colo com a respiração ofegante... Parecia uma criança rendida à noite. Acariciei seus cabelos com mãos maternais e o cobri com a colorida colcha de retalhos. De manhã, o cheiro de café forte me despertou. Encontrei o homem na cozinha preparando o desjejum. Frutas, queijos, pães e o jornal diário. O homem vestia um roupão velho e agia como se fosse um antigo morador. A intimidade assumida me assustou. Perguntei quando iria embora. Ele, com sorriso nos lábios, falou que eu estava condenada a hospedá-lo. Dominada pelo medo, quis expulsá-lo, mas o corpo não reagia...
Corpo prostrado e grito enterrado na garganta, acordei com o coração disparado. A perigosa arritmia da madrugada. As sombras maculavam o limiar da realidade. Apenas um sonho. Andei pela casa, redescobri a realidade... Lembrei-me de todos os detalhes: o homem era completamente desconhecido, mas no sonho parecia amigo; a casa era costurada com cômodos do apartamento atual e do lar da infância. Restavam intactos os cantos da lembrança... A coberta colorida estava perdida em algum esquecimento. Demorei a dormir. O sonho era assustador. Parecia tudo tão real - o invasor e o medo.
Absurdos que ganham a realidade nas manifestações do inconsciente.
Amanheci no esquecimento. A campainha me despertou para o perigo. Será? O sonho se descobria em minha frente. A lembrança do desconhecido, a condenação... Era o porteiro com o jornal. Novamente a rotina dos dias. Apesar de me sentir segura, o coração disparou... As matérias do jornal invadiam o meu mundo: “mais quatro anos de Bush”; fortalecida a guerra contra o terrorismo; rumores de morte cerebral da autoridade palestina; novos alvos; sobressaltos; transições políticas locais; embaixadas fechadas com medo de atentados; uma mulher morta sem motivação aparente... O mundo invadia minha intimidade, tornava-me refém de obscuridades.
Um amigo ligou confirmando um jantar em minha casa no sábado. Fiquei feliz com a delicadeza, mas prendi-me novamente na inquietação. E se...? Sem querer, perguntei quando iria embora. Diante do impróprio questionamento, simulei uma conversa paralela e desliguei o telefone.
O sonho transformara meu dia num emaranhado de atos falhos e enigmas. Estava submersa nos possíveis significados e seguia o curso da rotina. Reconstruía o perfil do desconhecido. O que representava em minha vida? Aprofundava-me nos meus medos. O que projetava tantas sombras?
No noticiário noturno, fui surpreendida pela notícia de uma invasão em um prédio urbano por um grupo de “sem-teto”. Os invasores ocuparam o imóvel abandonado e expulsaram os mendigos. Não compreendi a informação. Não devo ter ouvido direito. Os mendigos também não têm tetos... Ou será que para o reconhecimento é necessária a filiação a um grupo com carteira de identificação e demais formalidades?
As palavras do desconhecido invadiram meus pensamentos. Estava condenada a hospedar as dúvidas e a insensata sucessão de fatos e notícias.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/01/2005
Código do texto: T2331
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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