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COMPREI UM VINIL COM BOLEROS ANTIGOS

A convivência entre duas pessoas é o desafio de fazer-se apaixonante a cada dia, não deixar o outro perder o brilho dos olhos e nem mesmo permitir que haja a possibilidade de apagar brasa que aqueceu os corpos.
Tem muita gente por aí que se deixa vencer pela canseira. Amar é o maior sentimento de todos, e por isso, o mais difícil de alcançar em plenitude.
É também notório que por algumas, senão muitas vezes, consideramos infantis algumas das proezas que já realizamos outrora por um amor ainda não alcançado.
Depois, parece que perde a graça.
A conquista se transforma numa maldita dádiva, depois de efetuada. Nosso instinto carniceiro parece que nunca se contenta com o que já possuímos.
Possuímos? “Possuir” é uma expressão muito definitiva. E quem disse que possuímos algo relativo a sentimentos ou o coração de alguém? Quem te deu esse direito de dizer: ‘minha mulher’? Sentimentos (por nossa culpa ou não) mudam a toda hora, num piscar de olhos. Hoje mesmo, a pessoa que nós éramos, pode ter se transformado apenas num vulto inacabado. Por sorte, podemos sentir saudade de quem já fomos. Já é um começo.
Qualquer um de nós já foi mais infantil, puro e mais, muito mais livre de regrinhas tolas.
Hoje, por uma questão de afirmação na sociedade, precisamos nos portar como homens de negócios, usar expressões que impressionam e entrar numa batalha ridícula para parecer mais inteligente do que os outros. Hoje em dia você precisa de status, fumar charuto, ver revistas de mulher pelada. Tudo para parecer macho, quando no fundo deveríamos ser apenas humanos.
Aí, não sobra tempo para amar...
Sua agenda tem compromissos importantes demais para você, por exemplo, ‘perder tempo’ aprendendo um poema novo, para depois recitar para sua mulher. Isso, se depois de viver uma vida assim, você realmente ainda possui ‘uma mulher’....
Se for assim, esta ‘posse’, talvez seja igual a você: apenas um moribundo peregrinando por aí, agonizante.

Ontem, depois de algumas eras perambulando pelo vazio que a vida eletrônica, poluente e moderna nos propicia, sintonizei (acidentalmente, é verdade) o rádio do carro numa estação que tocava um bolero. Justamente o bolero que eu dancei na areia da praia com minha atual esposa, na época em que tentava morar no seu coração.

Cantarolei 'cuando calienta el sol aqui em la playa / siento tu cuerpo vibrar cerca de mi / es tu palpitar, es tu cara, es tu pelo / son tus besos, me stremezzo oh oh oh ....'

Antes de ir para casa, fui comprar uma rosa e um vinil de boleros antigos. Senti saudades de mim.
Martins Filho
Enviado por Martins Filho em 09/06/2005
Reeditado em 09/06/2005
Código do texto: T23365
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Sobre o autor
Martins Filho
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
52 textos (5955 leituras)
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Martins Filho