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O corre-corre da capital!

Corre-corre da capital!

Essa semana fiquei em São Paulo, conciliando algumas atividades profissionais, orientações de meu mestrado, aula, e a participação em um Congresso.
Estava eu às dezoito horas desta quarta-feira, esperando o metrô, na estação Barra Funda. Um horário praticamente “fatal”, sendo bastante concorrido. É verdade que o termo esperar, aos desavisados, pode dar a idéia de que, calmamente encontrava-me na plataforma a refletir, enquanto aguardava a condução, tecendo proposições das mais agradáveis.
Quem já esperou pelo metro em São Paulo, em hora do rusch, sabe bem do que estou falando. A realidade é outra. Você não aguarda, você luta desesperadamente para permanecer com os pés apoiados em qualquer lugar sólido, na expectativa da chegada da condução, sem contar que busca enxergar a porta de entrada da mesma, coisa que parece impossível.
Por fim, chegou o metrô. Algo quase místico acontece. Uma experiência quase religiosa! Você não entra no metro, você é “entrado”. A multidão oscila, e neste movimento atende ao desejo mais caro de todo cidadão que ali se encontra. Como por ordem divina me vi dentro de meu objeto de desejo, naquele momento crucial de minha existência. Quase por encanto fui instalada em algum interstício entre a multidão, aprendendo de modo inequívoco algumas noções de física.
Tudo me dava o sabor inigualável de estar me dirigindo para casa. Havia os que não possuíam a sutileza de um aprendizado tão, tão... hum...tão ... Como diria? Sim. Nada pode externar algo tão... Tão! Definitivamente uma experiência única.
O metro se movimentava na velocidade que lhe é própria. É claro que não se tem noção de onde estão as janelas, o que impede de se obter qualquer ponto de referencia, mas o simples fato de estar se locomovendo era animador.
Finalmente ouvi alguém mencionar a estação na qual ia descer. Sé. Algo me faz pensar em Fé, não sei por quê.
Estação das mais importantes, onde grande número de pessoas faz baldeação saindo cada qual, em busca de seu destino. Preparei-me, lembrando que não desceria, mas seria “descida”.
É comovente a solicitude do povo da capital. Você precisa apenas, através de um esforço considerável, é verdade, posicionar-se corretamente. Simples assim: posicione-se e fique humildemente aguardando e, inexoravelmente, a multidão o levará.
Então, como por milagre, nesta viagem abençoada, fui colocada fora do trem.
Sem nem ao menos colocar os pés no chão! É fato que há os insatisfeitos, mas fazer o que, a humanidade tem essa fraqueza como parte inerente de sua natureza.... Só porque alguns descem onde não planejaram, ou são mantidos no trem sem que seja esse seu desejo, já se irritam. A impaciência é imperdoável quando se trata de atividade coletiva! Fiz questão de manter meu bom humor e, evidentemente, meu otimismo.
O segredo está em não resistir, apenas isso. O mais é automático! Uma beleza! Temos a experiência viva da modernidade, como se o ato de entrar e sair do metro já estivesse informatizado, numa configuração especial.
Bom ressaltar um pequenino detalhe, coisa básica. Por vezes, ao ser “saído” do metro, poderá apresentar algumas pequenas reações colaterais. Pode ocorrer certa confusão mental sobre o destino a seguir, ou alguma dificuldade passageira quanto ao equilíbrio. Por favor, não imaginem que o metro provoca crises de labirintite. Trata-se apenas de efeito passageiro. Não se preocupem com isso. Nada que não vençam em alguns segundos. Ou minutos..Talvez, só talvez, algumas horas. Importante é que não há registro na literatura do trânsito no metro, de algum caso que tenha durado “para sempre”, isso nunca! As fábricas automotivas garantem.
Vencidos estes pequenos desconfortos, a aventura continuou. O retorno ao lar acenava cada vez mais como realidade. Uma conquista que provoca sentimentos dos mais diversos em meu coração. Corri então para o segundo embate, opa... Perdão, embarque. Já com o corpo adaptado ao encolhimento necessário, me posicionei novamente na plataforma. Ato contínuo à aproximação do trem, ouvi aquele som peculiar, uma condensação de suspiros, mesclada de gemidos, e alguns ais perdidos pelo espaço. Claro, o que encontravam para ocupar... E então o som se transformou em zumbidos crônicos, soando aos meus ouvidos como um lamento. Estranho! Não compreendi o lamento se estávamos todos vencendo o desafio de chegar em nossas casas, finalmente.
Nesta hora alguma coisa saiu errada. Quero dizer... Sai.
Sendo eu pessoa de pequena estatura e pouca espessura, acabei facilmente acondicionada em meio aos que me cercavam o que me impediu a visão do que se passava à volta. Isso fez com que me sentisse uma ilha de “eu”, cercada de “eles” por todos os lados!
Percebi a movimentação, já conhecida, que prenunciava o transporte automático de minha pessoa. Preparei-me animada.
O movimento, aparentemente normal, se desenrolou dentro do previsível até que, sem entender bem o que houve, tive a sensação de ter caído na realidade. E para minha surpresa me vi estatelada sobre os trilhos.
Para sair de lá, não contei com a simpatia e colaboração gentil da multidão. Embora tenha ouvido um som bem mais animado e barulhento que antes, como se fosse... Como se fosse... Pareceu-me uma gargalhada coletiva! Imagine! Devia estar mesmo cansada...
Então, desta vez não me "foram".... Fui!






Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 09/06/2005
Reeditado em 30/09/2005
Código do texto: T23428
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
1286 textos (215185 leituras)
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Priscila de Loureiro Coelho