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Tonhe Gordo

Muitos conheceram a sua brilhante trajetória política. Poucos se lembram ou viram o seu início como coroinha e sacristão da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo. Eu acompanhei bem esse período e pude firmar uma amizade que se consolidou no Curso Ginasial, no Centro Educacional de Poções.

Tonhe era muito franzino. Estudávamos na casa de Fernandinho Schettini junto com Remo, Tonhe de Dôca, João Queiroz, Jota Fagundes, Miguel Mário Sola e Terezinha. Fernandinho foi quem colocou o apelido e era pra diferenciar de Tonhe de Doca.

Naquela época, o sujeito ser sacristão era um cargo de extrema confiança do Padre Honorato. Com certeza não faltaram os avais de Dona Janael, sua mãe, e Dona Fetinha. Mas acho que Tonhe foi promovido mesmo pela sua livre andança entre a cruzadinha e a sacristia.
 
Era um cargo de muita responsabilidade, pois deveria abrir a igreja antes da missa das sete, tocar o sino, preparar os paramentos do Monsenhor, acender as velas e as brasas do turíbulo, ligar os microfones, encher as galhetas de vinho e água, ajudar na celebração da missa e ainda passar a sacolinha do dinheiro. Quando tinha batizado, ainda fazia as anotações no caderno. Aos domingos, os coroinhas eram quatro e as tarefas ficavam mais fáceis.

Cada coroinha vestia uma capa com a cor indicada no anuário das missas. Mas sempre existia a distribuição dos postos dos coroinhas no altar pelo conhecimento de cada um. À direita do padre, ficava Tonhe Gordo, a esquerda era a minha posição e os dois restantes apenas seguravam uma tocha e observavam os movimentos como verdadeiros aprendizes.

Tivemos dois bons professores. Fomos formados por Guido e por Vicente, sacristãos anteriores.

Mas, nem tudo era trabalho. Aos domingos, a gente viajava para o interior do município. O padre Honorato havia comprado uma Vemaguete e Chinha era o motorista preferido dele. Andávamos por Duas Vendas, Rio das Mulheres, Morrinhos, Bom Jesus, Amianto, etc. Nesses lugares, a gente ainda lia a epístola.

Lembro bem das missas na mina do Amianto. Existiam uns franceses que faziam questão de oferecer um bom vinho. Aquilo, naturalmente, fazia com que o padre se estimulasse a voltar muito breve.

Bom mesmo era viajar para as cidades vizinhas nas épocas das festas dos padroeiros: Boa Nova, Ibicuí, Planalto, Iguaí, etc. Sentávamos à mesma mesa dos padres e o almoço era farto. Em Planalto, o almoço era na casa de Maria Padre. Em Boa Nova almoçávamos na casa do Padre Vicente e em Ibicuí, na casa do irmão do Padre Honorato.
 
Tonhe Gordo se afastou do trabalho de sacristão. Eu continuei um pouco mais e abandonei o posto bem na época em que a moda era usar camisa “cacharrel”. Já estava na idade de fazer farra e este posto não era condizente com minha nova atividade. Ganhei uma camisa “cacharrel” amarela e daí por diante o Padre quando me via dizia “camisa amarela, você abandonou a igreja”.
 
Fizemos os cursos de admissão e Ginásio juntos. Fomos bons alunos e sempre conversávamos longamente todas as vezes que nos encontrávamos, seja na Festa ou na UPB, aqui em Salvador.

Quando completamos os 30 anos de Ginásio, na emoção do discurso, mencionei que aquela nossa turma estava dando um exemplo grandioso de união e que nela havia dado de tudo e, certamente, dali sairia um governador. Tonhe me confidenciou que o lugar dele era junto ao povo de Poções. Poucos meses depois, num ato de extrema infelicidade, ele se foi. O sucesso e o fracasso andam de mãos dadas.

Sendo apolítico e analisando apenas como amigo, sinto orgulho de poder ter convivido com uma pessoa com o brilhantismo de Tonhe, que se comparado, já demonstrava nos pequenos atos naquela convivência religiosa.

Mas somos apenas passageiros nesta vida. Não podemos apostar. Podemos viver e enquanto isto brilhar. Assim ele fez por Poções e não foi à toa que manteve o slogan de “Poções, o brilho do Sudoeste”.
Luiz Sangiovanni
Enviado por Luiz Sangiovanni em 06/09/2006
Código do texto: T234309
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Sobre o autor
Luiz Sangiovanni
Poções - Bahia - Brasil, 60 anos
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