Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

GIOCONDA

     Festa, luzes,cantos... e eu, partilhando toda aquela alegria, até que alguém começou a cantar Mia Gioconda, canção que fala de um jovem que viajou para muito longe e lá encontrou seu grande amor.Mas o destino não permitiu que esta felicidade durasse, pois ao regressar, não pode trazer a amada consigo.
     Senti-me transportada para outro mundo, outra época de minha vida:"Eu, ainda criança e meu pai cantando esta mesma melodia, com sua forte voz de barítono... Como ele gostava de cantar!...
     "Lembrei-me de seu carinho, sua emotividade e, como em um filme, vários fatos de nossa vida cruzaram minha mente, emocionando-me até as lágrimas. Eu, dormindo sentada à mesa do jantar e ele me carregando no colo, até a cama. O cinema de subúrbio do Estado do Rio, que tinha sessões com 4 horas de duração... Mal terminava o seriado que gostava de assistir, cruzava minhas pernas sobre a poltrona e dormia tranqüilamente.  No final, tarde da noite, ele, carinhosamente me levava para casa em seu colo, sob o protesto de minha mãe e irmãs.
     Revi a época em que não tínhamos ainda o conforto de um chuveiro elétrico e meu pai preparava, na grande bacia de alumínio, não apenas o m,eu banho, mas também o das outras filhas.
     Revi as noites em que à luz da lamparina de querosene, verificava nossas lições, nos fazia ler o jornal do dia e comentar as notícias locais e mundiais.
      Revi o homem sem estudo regular mas culto como poucos, que aprendeu a ler ouvindo a professora ensinar os alunos enquanto fazia faxina nos corredores da escola, mas nunca aprendeu a escrever por não ter quem lhe ensinasse  e guiasse suas mãos. Mãos calejadas e endurecidas pelo trabalho pesado.
     Eu o revi em minha adolescência e início da juventude, sempre presente, sempre amigo, companheiro de folguedos, conselheiro compreensivo e sempre jovial. Aliás, creio que nunca chegou a se tornar adulto e por isso nos compreendia e era o companheiro e amigo ideal, mas de total irresponsabilidade como pai, o que nos proporcionou uma vida insegura e itinerante. Porém, naquele momento o filme que via mostrava-me apenas as horas e dias maravilhosos que vivemos juntos."
     Ao terminar a melodia me senti triste e vazia. Talvez nunca tenha sentido tanto sua falta, como naquele momento.
     Só então me lembrei do abandono e da situação dificil em que nos deixou. Mas não com ressentimento ou mágoa e sim, com muito pesar pelo mal que causou a si próprio.
     Um dia partiu para longe, foi sozinho, em busca... de quê? Não sei. Talvez, nem mesmo ele próprio soubesse. Creio que procurava encontrar a si mesmo.
     Hoje não vive mais neste mundo e só espero que tenha encontrado respostas para suas incertezas e, que em algum lugar no vasto infinito, seja onde for, tenha por fim encontrado sua Gioconda e que ao contrário da música, possa tê-la conservado ao seu lado para sempre.
nina de lima
Enviado por nina de lima em 07/09/2006
Código do texto: T234475
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
nina de lima
São Paulo - São Paulo - Brasil, 74 anos
35 textos (1536 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 10:51)
nina de lima