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JANELA DA CONSCIÊNCIA (HOMENAGEM AO CARRANO)



O que Dostoiévski diria diante de uma condenação sem crime?
O homem escreve um livro biográfico. Relata os quatro anos que permaneceu internado em hospitais psiquiátricos sob severos tratamentos. Emociona o leitor com sua tenra idade – é apenas um menino de 17 anos – no tempo em que encarcera em suas angústias, na expectativa de uma sessão de eletrochoque, na apatia de um olhar vidrado num ponto qualquer da parede, na percepção tardia dos ausentes nas rupturas do discernimento...
Páginas que rendem dias para quem foi aprisionado nas tantas paredes das rotinas psiquiátricas e ameaçam nossa segurança com a sensação de mal-estar, com a incerteza diante da ficção com veias de realidade.
Não serão as palavras que fantasiam nossas vivências? O quanto de nós não é ficção de própria autoria? O Personagem perde a adolescência enquanto o homem expressa como recuperou algum sentido já amadurecido – devolveram-lhe para o mundo na maioridade e com capacidade de discernir sua responsabilidade.
“Não dá pé não tem pé nem cabeça/Não tem ninguém que mereça/Não tem coração que esqueça” Talvez a letra da música no filme alerte “Não tem jeito mesmo”... A enorme tela escura nos tira o chão, de repente somos um retrato de nosso confuso pensamento. O reflexo se recompõe e tentamos sair tateando o breu em busca de nossas rotinas.
“Não tem talvez.”
No final da exposição, lemos com os olhos marejados que o filme “Bicho de sete cabeças” foi baseado no livro “Canto dos malditos” de Austregésilo Carrano Bueno. O filme ganha o mundo, recebe prêmios e consagra os atores, enquanto o autor enfrenta os tribunais para ter o direito de vender seus livros.
O homem aprisionado em lembranças está condenado ao silêncio. O que podemos imaginar? Estamos restritos ao entretenimento e o personagem central à privação? Como construir a fictícia vida de um nome preso às paredes do silêncio?
“Cresça e desapareça”.
“Ter feito o que você fez”... Fecho os olhos por instantes...


Ainda entardece. Os precipitados movimentos por entre as últimas cores se contrastam com os débeis pensamentos das primeiras ausências. Sombras e cantos... Luzes e grades...
Há um último pássaro voando! Esse pássaro sou eu... Não! Há grades em tudo, há grades em mim...
Tento, em vão, descobrir-me do abrigo. É inútil. O sol já se pôs e o que resta é um céu plúmbeo e algumas silhuetas melancólicas perdidas entre as escondidas nuvens. Lembranças rasgam algumas lágrimas, palavras corroem sentimentos fragmentados. Perdi a certeza de estar vivo, perdi a liberdade de envelhecer de próprias vivências.
Vejo-me no espelho. O reflexo preenche o mundo da representação. Afinal, o que posso ver do mundo além dessas muralhas, além desses interditos? Passo as mãos à face. Envelheci sem sentir o tempo, mas ele não me esqueceu – talhou-me o rosto com a escultura da vida que passou e não vivi. Sou um homem sem sonhos com o rosto em retalhos.
- O que fiz? Por que me condenaram pela juventude? Por que me mutilam por algumas descobertas? Por quanto tempo ainda me culparão?
Dos sonhos teço a mortalha, meu presente se constrói com as linhas do passado. Dispo-me da percepção, deixo que as drogas anestesiem os sentidos, soltem-me num desfile tardio de primavera. Encarcerado em meus subterrâneos, permaneço com os olhos vidrados num ponto da parede com a sensação de contato com todos os cantos que cerceiam os movimentos. Perdi o prazer no corpo de minhas ausências, achei o abandono nos olhares do mundo.
Cerro as janelas. Costuro as frestas de luz para que falsos brilhos não ofusquem o que me resta de lucidez. Em algum canto, um maldito consegue sobreviver a sua condenação; em outro, um rende-se nos limites da impossibilidade. Mas o mundo permanece indiferente... Até quando?
As palavras retornam... Costuram os remendos de consciência e me condenam à liberdade de repeti-las. O reflexo preenche o mundo da representação, as palavras margeiam a imagem... Palavras me sustentam em substantivos e verbalizam o futuro. A expressão constrói alicerces em minhas ruínas...
O breu cede espaço para as fortes cores do ocaso. No horizonte, percebo o caminho possível, a continuidade de uma oração. Distante das grades, posso entardecer em minhas vivências e percepções, lançar no mundo as sombras do que não devemos deixar de compreender.
Há um último pássaro voando... Este pássaro sou eu!


Carrano atualmente participa do Movimento Antimanicomial, tentando resgatar a dignidade da condição humana e a liberdade de ser diferente sem ser discriminado...A expressão das próprias vivências é um direito que não pode ser violado.

*os trechos transcritos são da música Bicho de sete cabeças (Zé Ramalho/Geraldo Azevedo/Renato Rocha) da trilha sonora
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/01/2005
Código do texto: T2346
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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