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O VÉRTICE DE TRÊS POEMAS - LUIZ GUERRA

O VÉRTICE DE TRÊS POEMAS
Poemas mínimos de Luiz Guerra


cresceram da lama
e de obscura magma,
pulsando e correndo água e cristal


O poema se desvela e ganha novas perspectivas no olhar cotidiano. A iluminação de um pensamento descobre uma virginal metáfora. Somos seduzidos a deflorar a obscuridade. A janela aberta e o leito das águas do bairro antigo. Os versos passam e o sentimento permanece. O endereço virtual é a margem segura de um rio que, como um valão, recorta a rotina com a fotografia instantânea de nossa presença com os poemas mínimos de Luiz Guerra: (http://luca.zip.net).
31 de outubro... Já é tempo de ganharmos os céus dos contos infantis e amadurecermos embriagados com as realidades do mundo. No anoitecer sentimos rasgar o manto sagrado que nos protege como estrelas cadentes, a infância ganha vivacidade sobre as vassouras encantadas, mas todo o sonho desperta num amanhecer fadado aos constantes brilhos. A magia se esconde sobre a racionalidade de um eu centrado. Zênite. Onde estarão as sombras? Os brilhos que davam novos contornos ao mundo? Valeu o impulso! Sonhei... A abertura de janelas, um novo olhar desbrava territórios desconhecidos...

[31 de outubro]
abro a janela num impulso —
lá estão elas, bêbadas de céu,
varrendo as larvas do mundo

Os versos seguem o curso. À margem, tentamos identificar o sentido das correntes que nos impulsionam a acreditar num presente. A palavra surge como o lar do poeta que observa o bairro e passa em tantas percepções como o rio anônimo que esqueceu de denominar. É mais do que um nome, é um limite, um ponto de partida... Sem identidade, muitas vezes, somos riachos a dividir a realidade dos sonhos em nossos territórios. O poeta passa no rio de sua infância e aporta no presente sem conseguir mensurar o percurso. A água dos nossos inconscientes... Suaves gotas flutuam como espelhos de um céu imortal, cio de profundas águas nas palavras que passam com a suavidade de um rio maduro que esqueceu de desaguar...


[o poeta e o rio]
o rio que passa no meu bairro
passa como valão quando ali passa,
nem tem nome de rio esse rio, só passa

Em terra firme, o tempo parece embalsamar a folha seca, a manhã cinza, o florescer precoce, o pescado fresco de um amanhecer refletido... A vida corre em ciclos e perpetua-se à margem. O poeta inverte o curso e deixa-se à deriva, entregue à sabedoria da natureza... Percorre as próprias rugas e, com desejo, penetra o universo: adere ao barro e se desfaz no correr da águas... Renasce em nuvens... O homem compreende-se mundo.
Acaso? Destino? Sem leme, o poeta deixa-se passar como o rio discreto e sem nome, como os que passam simplesmente sem as âncoras que nos atracam aos nomes dos territórios já conhecidos. Os versos flutuam nas águas límpidas, os sentimentos permanecem fundeados na profundidade do criador/criatura.

[o rio e o poeta]
mas é rio sábio quando ali passa,
desta sabedoria simples e passadiça:
sem ocultar-se nem ser reconhecido

Existem percursos que não passam despercebidos. O suave rumor das águas abre as janelas dos sonhos e a poesia aventura-se na travessia do destemido poeta. Luiz Guerra cria novas sombras para o mundo com a iluminação de seus versos. Um novo horizonte se desvela num leito inexplorável. Não podemos passar indiferentes aos rios que alimentam o dia-a-dia.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 24/01/2005
Código do texto: T2349
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Helena Sut

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