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VÔMITO



       Àquilo que nos faz mal, que nos desagrada, denominamos vômito. Na verdade, é algo que engolimos e que não vai bem, incomoda e não pode ficar, pois fará mal maior ainda. Coloca-se pra fora, voluntariamente ou não, e sai algo podre, fedorento. Desagrada enormemente a quem vomita, mas muito mais a quem o presencia. Afinal, os outros não se sentirão aliviados como o protagonista. Não têm, via de regra, nada com isto. Entretanto, são os que mais aspiram esse odor desagradável. Talvez os respingos os atinjam menos, mas a agressão lhes soa maior.

Todavia, apesar dos pesares, é imprescindível “colocar pra fora”. Não se convive com o quê se lhe faz mal. Livra-se daquilo o mais rápido possível, com o mínimo estardalhaço que se conseguir. Aí a pessoa se renova, sente-se outra. Mas espera-se que não “pronta para outra”. Afinal, “dói” muito fazer isto. Incomoda.

Quantas vezes tentamos evitar o vômito! Sei lá se, às vezes, se consegue... Só sei que não faz bem. É como um osso, um espinho, na garganta: deve ser retirado, para dentro ou para fora. A segunda hipótese parece-me ser a melhor. Não entendo disto, apenas suponho. Engolir deve ser mais trabalhoso. Descer “rasgando” pela garganta deve deixar rastos. E, então, não se está, de todo, ficando livre; vai-se conviver um bom tempo com a lembrança, a marca, o retrato.

Ainda ontem, em conversa via telefone com minha irmã, reclamava eu de minhas angústias, meu descontentamento com algumas situações, o que me havia levado a tomar algumas atitudes que foram questionadas por ela. Então ela me disse que havia aprendido que certas coisas (não estou parodiando Lulu Santos) devem ser expulsas, mas não com o intuito de agredir, pois aí ficam os rastos, mas de limpar-se. O que importará, segundo ela, não é o outro, não é não ofendê-lo, mas exatamente o eu, o meu bem-estar. Creio que entendi corretamente. E concordo. Retomei o que podia em relação às minhas atitudes, mas me vi, logo em seguida, desafiado a colocar em prática o que ela me disse, para evitar ter que corrigir depois. É que corrigir é bom, mas não ser necessário fazê-lo é melhor ainda.

         Foi difícil. É o costume. Revida-se tudo, não se absorve nem absolve nada. E nem ninguém. Faz parte da auto-afirmação, do saber-se irreparável, inquestionável. Não aceitar derrotas. Tem-se sempre que revidar, dar o troco. É o alívio. Mas a que custo? Tornando-se mais nervoso ainda?

         Nesta hora, devido à dificuldade, vem o desafio: conseguir superar-se, relevar o nervosismo. Para isto, entrego-me Àquele que me protege sempre, pois d’Ele não posso prescindir. Não tenho religião, mas tenho Deus o tempo todo, e não seria este ser que sou sem a Sua presença. Não quero parecer chato, mas não O esqueço em momento algum.

         Então, o vômito deve ser um lenitivo, não uma agressão. Deve servir para nos fazer bem. Claro que não se consegue isto de uma hora para outra; todavia só o propósito de fazê-lo já nos serve de incentivo e o desafio está lançado.

         O vaso onde lanço meus excrementos tem sido meu note-book, que não me abandona jamais. Meu outrora sonho de consumo se tornou muito mais útil que eu imaginava. Nele tenho despejado tudo aquilo que nem sempre ouso falar. Fica só entre nós dois e ele não me trai, pois deixa estas lembranças apenas na sua memória, a RAM, como a professora Elizabeth Duane (gracinha) me ensinou. Assim, caso eu queira, deleto, faço-o esquecer-se. A estes despautérios que tenho escrito apenas duas pessoas até agora tiveram acesso: minha irmã Maria Helena, companheira e incentivadora, e minha amiga Gláucia Amélia, professora de flauta, que conheci no Centro Cultural de Contagem, presença crítica e alegre o tempo inteiro. Se me sobrarem coragem e oportunidades, talvez , quem sabe? outras pessoas também venham a ser bombardeados com tudo isto. Em princípio, a despeito dos incentivos para tornar público, é apenas a minha forma de desabafar.

         Preciso disso, pois o nervosismo sempre foi meu companheiro e, agora, faz-se mais presente ainda, quase inseparável. Amigo pra toda hora. Quando eu menos preciso, ele se manifesta, como se dissesse: “Ei, amigo, eu estou aqui! Conte comigo!” Mas ele se engana; eu tenho compromissos. Comigo e com aqueles que apostam em mim. Assim deve ser e assim será.
                                               05/07/05

Pabinha
Enviado por Pabinha em 08/09/2006
Código do texto: T235864
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Sobre o autor
Pabinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
32 textos (4979 leituras)
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