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OUTROS COSTUMES

           Bem diz aquele ditado: "cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso".

           Quando vim para Fortaleza, há exatamente 42 anos, estranhei um bocado o emprego de palavras diferentes daquelas às quais estava acostumada, para indicar determinadas coisas.

           Cheguei aqui num dia 1° de julho e ouvi dizer que o inverno nesse ano tinha sido muito pesado, pois chovia desde janeiro. Eu não sabia que chamavam o período chuvoso de inverno, daí ter dicado um tanto admirada. Como no Nordeste chove pouco ou nada, tem ano então que não há inverno? Tudo bem que só considerem a ocorrência de duas estações (inverno/verão), mas como podem ignorar a Primavera que se abre em flores, até mesmo no meu jardim?

            Também dizem que o céu está bonito quando se apresenta cinzento, carregado de nuvens escuras, sem um vislumbre de sol. Para mim, céu bonito é aquele todo azul, com nuvens brancas e repleto de luz, o que é comum nesta terra privilegiada.

            Já escutei muita gente boa dizendo por aí: "ei, Seu Zé", "ei, dona Maria", interpelando alguém. De onde vim o costume é dizer "moço" ou  "moça", ainda que não o sejam.

             A primeira vez que fui fazer um lanche na cantina da repartição onde trabalhava (DNOCS), me ofereceram cachorro quente de carne de gado. Levei um susto, até então eu só tinha comido carne de vaca, e nem imaginava que existisse cachorro quente de carne moída. Se perguntarem a qualquer carioca o que gosta de comer, a resposta inevitável será: bife, batata frita e cachorro quente, mas, por favor, só de salsicha.

             Falando na repartição lembro-me do quanto estranhava o comportamento dos contínuos quando lhes pedia, ou dizia para fazer alguma coisa. Era tempo perdido. Ficavam me olhando aparvalhados. Será que estavam aturdidos com a minha beleza? Não era caso para tanto. Pelo que soube não conseguiam entender o que eu lhes dizia; não posso nem criticar, pois a mim me acontecia o mesmo, muitas vezes tive que pedir o auxílio de um intérprete para lhes traduzir a linguagem.

             Naquele tempo (Há 42 anos) os super mercados não haviam chegado à cidade, e na hora de comprar frutas e legumes (na feira ou em ambulantes) a dúvida persistia: macaxeira é aipim? jerimum é abóbora? e o preço é da dúzia ou da unidade?

             Aqui a linha para costurar não vem em retrós, mas sim em tubo, bem como o gás de cozinha que abandonou o botijão. Não entre num armazém pensando encontrar cereais e bebidas, só vai achar tecidos. Cuidado se escorregar e cair, pode esfolar o "couro". Se alguém mandar você rebolar no mato, não é caso para se ofender, é tão somente para jogar fora o que não serve mais.

             Ainda não sei ao certo se os fósforos e os cigarros vem em maços ou pacotes, e até hoje não descobri se moro do lado do sol, ou do lado da sombra.

              É isso aí. e é toda essa diferença no linguajar de um lugar para outro, que faz a graça e a beleza desta nossa língua brasileira.




HLuna
Enviado por HLuna em 09/09/2006
Reeditado em 13/09/2006
Código do texto: T236119
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
HLuna
Fortaleza - Ceará - Brasil
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