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Um mundo desconhecido - lembranças de Poções

Sempre abro os arquivos das estórias já escritas e cada texto sobrepõe outros. Difícil é a escolha. Este texto é a partir de anotações feitas. Achei engraçado e ao mesmo tempo histórico. São fatos que mexem com as lembranças de muitas pessoas e não poderia deixar de publicar.

Naquelas idas para Morrinhos, a gente senta na varanda e, enquanto Michele espera a lagoa encher, o papo rola e viajamos no passado. Vamos nos lembrando de fatos e personagens.

Quem não se lembra do bar de Mero, a sorveteria de João Liguori que depois virou o Bar de Arnóbio, a Visqueira de Jorge e o Bar de Tonhe Luz? Naquela época, todo bar tinha que ter “reservado”, um espaço para se consumir bebidas alcoólicas, pois a sociedade não permitia a exposição pública dos apreciadores;

Enquanto se construía a Igreja Matriz, rolava a Campanha do Cruzeiro. Dona Anina Sarno, minha tia, encampou e foi para a frente de batalha arrecadar nos dias de sábado, tostão por tostão, para pagar a mão de obra e o material de construção. Entrávamos em todos os estabelecimentos comerciais pedindo os donativos e deixando os cartões com 100 quadradinhos que eram perfurados a cada doação, durante os dias da semana;

Quem pensa que a Bela Vista foi a primeira Rádio de Poções se engana. A façanha foi do cidadão Pedro Matos que fundou a SRPCP. Imaginem anunciar: “no ar, SRPCP, o Serviço Regional de Propaganda Comercial da Cidade de Poções”. Ele andava num Jeep e com um imenso gravador de fitas de rolo a tiracolo fazia as entrevistas durante os jogos de Atlético e Bahia. Serviços de alto-falantes eram dois. O da Prefeitura e, depois, “A Voz do Gaivota”;

Achou SRPCP diferente? imagine a ACASCP – Associação de Cultura e Assistência Social da Cidade de Poções – o atual Clube Social de Poções (o título patrimonial de número 60 é o meu). Por falar em sigla, o Atlético tinha no escudo o APFC, Atlético Poçõense Futebol Clube, e uma empresa de ônibus se chamava ETMISA (Empresa de Transportes e Melhoramentos Itapetinga S/A);

Anotem aí a Seleção de futebol que Michele tem na ponta da língua. Só que a seleção de nomes engraçados dos nossos grandes jogadores dos campos da Lagoa Grande, rua de Morrinhos, dos babas do Obelisco e o do campinho (onde hoje é a casa da PM):
Ganapa, Mirinda, Zoma Barriga, Davi Corujinha ou Davi Cara de Jegue, Ti, Miel, Tena motorzinho, Pata, Pia, Ponga, Lejo, Lejado, Realejo, Mela, Capela, Barrela, Cumpade Nozim, Dobradiça, Cumpade Laro, Zozó, Regaçado, Espirro, Zé do pão, Cal Barú, Bubute, Batatinha, Lobinho, Miguelute, Lobão, Bufão, Lubião, Satobão, Rominho, Porquinho, Bizinho, Pedro Sibim, Bidinha e Zezim Bocão. Pra não perder a tradição, tivemos, recentemente: Sacola, Muleta, Liedson, Kena e aí vai;

A primeira agência do Banco do Brasil funcionou no prédio contíguo ao armazém de Fidelão. Fernando Sarno, Catão e Lô (Fulgêncio) foram os primeiros funcionários. Foi a primeira vez que soube que “república” significava bagunça, pois era um bocado de gente morando numa intensa bagunça. Veio gente de vários lugares do Brasil para trabalhar em Poções. Encantados com a beleza das moças de Poções, alguns se casaram e estão sempre entre nós;

Seu José Gomes Sobrinho era o ourives mais famoso de Poções. Natural de Serra Talhada – PE, andava com duas malas cheias de jóias e nunca foi roubado – tempos bons;

Fidélis do Arroz fundou o Cine Jóia (onde hoje é o Bradesco) e o filme de estréia foi “A Condessa de Hong-Kong”, com Marlon Brando e Sophia Loren – o filme é de 1967, escrito e dirigido por Charles Chaplin;

Também dessa época o fogão a gás. O primeiro botijão de gás foi vendido na loja de Américo Libonati. No lançamento, sobre um caminhão, as válvulas dos botijões eram abertas e eu era encarregado de manter as chamas bem acesas;

Ricardo Benedictis foi o primeiro artista a lançar um disco em Poções. O lançamento foi no Chamuscão, de propriedade de Jorge Dantas, anexo ao Bar Gaivota – A Visgueira;

Dr. Irundy Dias foi colega de João Durval, o ex-governador, e concluíram o curso de Odontologia no mesmo ano;

O primeiro serviço de telefone foi fundado pela Companhia Telefônica de Poções e funcionava na Av. Cônego Pithon. Gessy Almeida foi a primeira funcionária e o sistema funcionava com três algarismos a partir do número 500. Eu fazia os recibos de cobrança e distribuía pela cidade numa bicicleta; Arivaldo era o competente técnico;

São lembranças que mostram a rápida evolução dos tempos. Hoje, nós falamos com o mundo com as pontas dos dedos. Uma foto é enviada para o outro lado do mundo em questão de segundos. A Sapataria Insinuante virou um império comercial (a loja de Poções é a de número três). De 50 anos pra cá, aprendemos o que é energia elétrica, geladeira e televisão. Mudamos os costumes, tiramos as cadeiras das calçadas, falamos muito pouco com os outros e morremos de saudades.

Tempo que o vento levou...
Luiz Sangiovanni
Enviado por Luiz Sangiovanni em 10/09/2006
Código do texto: T237216
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Sobre o autor
Luiz Sangiovanni
Poções - Bahia - Brasil, 60 anos
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