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O CAOS NOS INFERNOS

Faz muito tempo que ouvi uma anedota sobre um desarranjo no inferno, confusão essa provocada mais precisamente por um determinado diabo, que o citarei como Dom Brasa – esse queria assumir o poder das metrópoles infernais, assim como dos inferninhos adjacentes; na verdade queria ser o Chefão. Quando ouvi a anedota, naturalmente, a primeira reação foi somente rir. Segui rindo-me por muito tempo quando dela lembrava, inclusive, em casa uma frase ali contida foi tirada e virou jargão cômico diante de certas dificuldades domésticas.

Desde minha infância tenho ouvido muitas historias tão engraçadas que seria puro egoísmo não passar adiante. Por esse motivo venho buscando fazer algumas adaptações, ou seja, dando outro foco às narrativas, já que muito da originalidade se perdeu no tempo e de minha memória.

Que desculpem os muito escrupulosos – digo religiosos, mas neste causo estarei fazendo algumas conexões entre terra e inferno, visto às passagens turbulentas, pelas quais a terra tem passado – Isso de inferno conheço de vultos da história.

Supondo-se que haja uma hierarquia no inferno, já que se ouve sempre falar em os Quintos dos Infernos, Purgatórios e outras zonas. E partindo de outros pressupostos imagine-se que também a sociedade infernal se assente, como as demais sociedades, em formação de grupos ou famílias (Se para lá, dizem muitos que se supõem mais diletos, se vão alguns pobres diabos que habitavam por aqui, e, para lá por suposto levam seus hábitos).

Em se falando de inferno não se pode deixar de falar de uma fase muito tenebrosa – A Idade das Trevas. Segundo a história, naquela época os tempos eram confusos aqui na terra; al era a grande desordem no orbe. Declinando um pouco da incredulidade, ou da grande crença (fé), e abstraindo-se se presume, então, que de alguma forma às experiências vivenciadas nesse período tenha algo de sobrenatural. Burlescamente o analogismo leva a se supor que D. Brasa, menino moço na crista da grande onda de progesterona, dava asas as suas diabruras juvenis para impressionar as diabinhas e enfezar os pais a ponto de sair dos limites dos territórios sombrios em que vivia e infernizar a terra. Suscetível e tendente a alma humana, eis que certos notáveis da época cederam às investidas menos elevadas e levaram sociedades, bem organizadas em pleno implemento de seus ideais a uma estagnação expressiva nos vários setores do conhecimento moral, científico e econômico. Todavia nem todos estacionaram há de se bem colocar que houve sim produções relevantes em campos autônomos. Esse período vai do século V ao X – 1000 anos de arroubos juvenis de D. Brasa.

Contudo, como é sabido não há mal que seja eterno. Afastam-se os homens do obscurantismo chegando em boa hora a Renascença. Então, viceja o iluminismo.
D. Brasa, embora dono de uma personalidade terrível, própria da espécie, nesse ínterim rende-se se aquietando visto às investidas maciças da espiritualidade Maior. Sabe ele por experiência própria com quem estava lidando e a quem tocava a hora e a vez.

Rendido e aquietado, e, como em geral macho vencido busca refugio num colo feminino D. Brasa não foi exceção. Às precipitações da mocidade sede lugar ao recato. Dedica-se ao seu inferninho particular. Enquanto ele se dedica às próprias tribulações e autoflagelações domésticas caminha a humanidade a passos largos e adentra na Modernidade, e, os homens fazem suas revoluções; sonhando com a realização dos seus ideais – Porém a humanidade, porta ainda em si os traços, remanescentes e, forte de comportamentos transgressores. Conflitante a terra em pé de guerra vive seus dias de inferno, ou quiçá deixa-se bafejar pela influência das trevas.

Não obstante, atinge-se aos dias atuais – célere dá-se às boas sucessões e, também, desventuradas ações e perdas que fazem parte, embora, de pronto não se entenda os porquês. Mas, por força do progresso estas ações, boas ou nocivas, se fazem necessárias; obedecendo aos critérios do progresso são levadas a efeito tais como:
- O desenvolvimento industrial.
- O lançamento de bomba atômica em alvo humano; a proliferação do terror em efetivas práticas terroristas;
- Quedas de muros;
- A globalização com suas vantagens e desvantagens – Um processo indomável.
E outros...

A propósito estanco esta analogia, pela dificuldade que todo paradoxo causa. E a fim não incorrer no erro de não demonstrar de forma clara o início desta meada - A anedota em si.

D. Brasa, diabo macho, que na juventude, nos caprichos imperiosos de sua condição viveu vagando entre os homens ora atormentando-os, ora divertindo-se com seus comportamentos – Hilário era que muitas vezes defendia-se dizendo lá nos infernos que nalguns casos ele era totalmente inocente ante de certas atitudes particularmente humanas. E assim por algumas interiorização das atitudes humanas D. Brasa às vezes agia como homem no seu inferninho. Medonha sua esposa, ainda que astuciosa, se encontrava bastante enfada nos últimos tempos com Brasa que até então, somente, lhe dera uma matilha enorme... Deixando-a só na labuta com as atentadas crias. Pois vivia ele com um pé nos infernos e os dois na terra.

Certa feita deteve-se aqui na terrinha muito tempo, totalmente esquecido dos compromissos conjugais e com a prole traquina, ocupando-se em observar o comportamento de certos políticos, que até para um diabo é algo extremamente pavoroso, não que os diabos sejam dados à ética ou aos princípios de moralidade. Mas como era seu intuito enfrentar Lúcifer e a bem pouco havia acabado de ler certo livro – onde os fins justificam os meios. Via que aqui poderia ele, com a conduta “diplomática” humana, engrossar seu cabedal de conhecimento - sua estada aqui era uma espécie de mestrado para os fins a que pretendia.

Satisfeito, com o muito de mal feitos humanos, observado e apreendido voltou às profundezas – sem aparecer em casa... Fez coligações com outros diabretes, investiu economias, sem pré-aviso a senhora sua patroa, no marketing pessoal. E cheio de si partiu para o enfrentamento. Apenas se esqueceu que todo diabo é além de toda nocividade, um traidor por excelência - jamais cumprem promessas (imagine-se, diabos dado às transações politiqueiras, por motivos ínfimos foi ele traído por alguns colegas).

 Lúcifer, O grande, astuto como é, por isso se mantém no trono, desde a muito. Ao saber das artimanhas de D. Brasa precatou-se, embora não o temesse. E terrível como era deu todos os panos paras mangas, deixando o plano da derrubada correr solto, pelo simples prazer de esmagar o adversário na hora “H”.
Com isso o inferno sofria um verdadeiro caos – Diabos de todas as classes sociais e patentes estavam agitados com os acontecimentos – pois jamais tinham sabido de diabo algum que tivesse sequer tentado afrontar o Chefão, menos ainda destroná-lo.

E no inferno privativo de D. Brasa, além da crise social que se alastrava interferindo no comportamento doméstico, lá, dona Patroa estava nefasta. Com o acumulo de cargos e responsabilidades do lar e com a matilha de cãezinhos adolescentes, muito ao gênero do pai, dava mostra de iminente loucura - e diaba tensa ou deprimida é pior que mil mulheres com TPM em noite de lua cheia ou em dias de junção dos planetas.

Chega o dia “D”, e, Lúcifer não dá nenhuma mostra de preocupação ou chance a D. Brasa que é sumariamente banido do inferno onde habitava. Desolado retorna para casa, pensando em encontrar um inferno mais ameno. No entanto, incauto e esquecido de sua falta de cumprimento para com a família, cabisbaixo, não se deu conta de que o caos lá, também, havia se instaurado. E a recepção ali não foi das melhores – Por serem tão endiabrados, literalmente, quando querem se livrar uns do outros – Davam-se, ao repasto canibal. O canibalismo, em regra, era do maior para o menor não necessariamente obedecia a essa ordem quando o motivo que levava a essa prática era uma briga no seio da família e estimulada pela mulher – que não era afeita à patente de matriarca, e quando as circunstâncias a levavam a isso; o primeiro que faziam, demorasse, o quanto demorasse, era preparar e estimular o Festim do Pega. O pobre diabo, Brasa, havia se esquecido disso também!!

Em casa todos muito eufóricos pelo faro pressentiram a chegada do triste diabo com o rabo entre as pernas. Que ao aparecer na varanda da própria casa – totalmente esquecido de como agiam os seus - pai que era de muitos capetinhas foi surpreendido pelo mais caçula de todos que teve o privilegio para puxar o cordão. Subitamente Brasa retornou à realidade – A dona Patroa organizou a filharada que de rabo e chifre, esses bem polidos e afiados, ansiavam pelo grito de guerra da mamãe diaba...

O espetáculo de caça tinha um ritual e dava-se por iniciado sob o refrão de “Pega, pega” neste caso a presa era o papai. Assim que Medonha gritou “PEGA, PEGA O PAPAI PRA NÓS COMER ELE COM ABÓBORA” surgiu capetinha de todas às idades, cor e tamanho; saindo de todos os lados... Brasa correu, correu a fim de se safar... Já quase totalmente esgotado escondeu-se num caldeirão desativado e esquecido. Mais sossegado veio-lhe à memória a lembrança de que não havia deixado uma matilha tão numerosa quando se ausentou, passou as mãos na cabeça e sentiu que algumas mudanças haviam de fato ocorrido – Coisa de Lúcifer que não perdeu tempo... Então desde àquele dia o caos no inferno se estabeleceu por completo, entretanto, nenhuma outra tentativa de derrubar Lúcifer foi implementada.
D. Brasa banido que foi dos infernos, chifrado de todas às maneiras possíveis, resolveu habitar entre os homens definitivamente. Com seu gosto apurado pela política e com sua facilidade para as facetas vive tranqüilamente em qualquer ambiente. Mas o “metieur” que mais lhe apetece é o Congresso Nacional Brasileiro. Imagine-se o porquê...
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 14/09/2006
Reeditado em 13/04/2007
Código do texto: T240073

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Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
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Cláudia Célia Lima do Nascimento