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Ventania

Suave brisa imprime no corpo um breve arrepio entre as imagens cotidianas... Apenas um homem distante caminha num paralelo de minha rotina e cria novas janelas nas paredes conhecidas. Achados na solidão de um pensamento, na coragem de um grito, na covardia de uma desatenção...
Por vezes, especulei como seria sua vida. Pensei no que via o olhar que em meu corpo projetava o desejo, no que sentia o homem de traços fortes que desnudava minha fragilidade, no que pensava o dono da voz grossa que ecoava em meus sonhos... Viajava ainda em suas mãos distantes, idealizando alguns portos seguros no extenso oceano de seu corpo, umedecendo meus anseios em seus lábios molhados ao longe, vivendo os sonhos na ausência de seus passos.
Mais um encontro... Ele se aproximou... Vertigem das primeiras palavras. Lançou meus pensamentos ao vento quando gravou suas intenções em minhas expectativas. Dias de insegurança e inquietações... Dias de encontros inaugurais...
O que dizer? Como olhá-lo tão próximo sem deixar que as névoas da timidez ofuscassem o brilho? Por que tantas palpitações?
Vertigem. Ele compartilha minha alegria... Amanhece na pergunta se ainda o amo, sente as inconstantes ondas do mar aberto, a possibilidade de uma viagem indefinida... Onde estarão os pontos de partida?
De repente, a presença se torna constante. Sua vida se entrelaça em minha rotina como seu corpo no meu todas as noites. Acompanho o ciclo da lua nos movimentos das marés dos nossos anseios e humores. Cíclicos, posso acompanhar as ondas de raiva e as explosões de carência. Navego em seus pensamentos e aporto na certeza de que ali desejo ancorar minhas emoções.
Tantas alvoradas tranqüilas desenhadas nos suaves traços de seu riso, no murmurar constante de seus sussurros... Sinto-o decifrar-me, abrandar meus turbilhões, preencher minha intimidade com sua atenção... Lê minhas metáforas no silêncio de um instante, voa em meus sonhos na constância de uma eternidade...
Intenso impulso. Vertigem. Lanço-me ao precipício. Sinto medo. Repouso em seus braços. Aconchego. Um gesto desconhecido. Vertigem. Procuro seu corpo ao lado em cada despertar. Escondo-me. Seus argumentos transpassam minhas estruturas. Acho-me. O mundo torna-se distante, indiferente...
O presente se estende por entre meus passos, novas sombras preenchem meus caminhos. Por vezes, sinto-o anoitecer, percebo alguns brilhos na sensibilidade orvalhada, presencio um ligeiro eclipse no céu de suas vivências. Desnudo-me dos véus coloridos dos claros dias de verão. Fantasio-me de estrela e tento iluminar o breu. Bordo a noite com os retalhos de tantos entardeceres...  Raio a manhã no calor das ternas palavras...
O dia passa na constância de algumas lembranças. Fecho os olhos para me aproximar, sinto suas mãos sustentando meu rosto, seu olhar alicerçando a perspectiva de um futuro. Sonho. Perco-me nas brumas das fantasias juvenis, encontro o corpo maduro a frutificar o desejo, o menino a repartir as estrelas, o homem a recomeçar a narrativa.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 11/06/2005
Código do texto: T24014
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 07:01)
Helena Sut

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