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A dura realidade

A dura realidade




Atualmente muito me intriga as ilusões criadas pelas pessoas para poderem sobreviver. Elas são tão pouco sinceras e buscam sempre viver na defensiva. Sempre sofrendo, se vingando, retribuindo etc. Adoro pessoas sinceras. É uma das razões por acordar todos os dias e saber que o dia será válido, provavelmente aprenderei algo novo, algum aspecto diferente da realidade, que não pode ser mais nada que a realidade. Não espero que a flor exale aquele aroma, não espero que o lixo seja cheiroso. Apenas sei que haverá lixo e flores, cada qual com suas características. Porque me privar de passar ao lado do lixo em detrimento da flor se os dois são tão reais quanto possíveis? Uma é mais prazeroso que o outro, responderia o mais incauto. Lógico, mas quem disse que devemos sempre ir em busca do prazer?

O prazer é agradável, mas muito mais vezes nos engana que nos esclarece. Desejo, ele deturpa tudo. Aprendemos a pensar sem o desejo. Ou nunca aprenderemos a pensar. O desejo não engana, ele é direto em sua vontade, em sua volúpia. Queremos comer, temos fome, vamos atrás da comida. O desejo é cru. Se não há comida para todos, há guerra, matança, sangue, daí resulta de menos cabeças e a comida se torna suficiente. Grande mestre Spinoza, não é por uma coisa ser boa que a desejamos, é por a desejarmos que ela se faz de boa para nós. Vivemos na ilusão e dela não podemos fugir. Para que pensar então? Podemos ser mais cautelosos. Quem se sabe compulsivo tenta se controlar, para viver melhor, para viver como pode. Quem se sabe compulsivo e nada tenta abre o caminho para as vias da entrega a compulsão, pode ser bom, mas duvido que uma vida encarcerada às ilusões seja a melhor.

Das ilusões criadas pelo desejo as que cultivamos vão muito além. O desejo nos diz qual é o principio da coisa, nós extrapolamos. E por demais das vezes extrapolamos muito. Criamos inteiras redes de desejo (aqui similar a esperança) que vão se entranhando cada vez mais e a satisfação de um desejo (esperança) está entrelaçado em outro e dois outros mais assim por diante ad infinitum. Onde vivem as pessoas de saltinhos de desejo a desejo, sempre em busca de uma nova satisfação que lhes de algum prazer. O prazer, decorrente da satisfação do desejo, torna-se uma meta de vida, inversão de valores, e cada vez mais o prazer é buscado, a todo custo. O que vale é ter prazer, nada mais. Sexo casual, drogas ocasionais, comidas boas, roupas confortáveis, ar condicionados. Vivemos nos entranhando em rede profundas de satisfações, mesmo os que dizem viver de modo simples tanto se aprazem com sua simplicidade que ela vira o oposto completo do outro caminho.

Enquanto fantasiamos em nossa busca por prazeres que não são os de nosso desejo (quem não deseja comer quando se está com fome? beber quando se está com sede?), mas sim de nossos caprichos. Eu desejo um Ipod, sem ele não poderia ser feliz. Desejo agora um cabo pro meu Ipod. Agora ainda desejo caixinhas de som portáteis para o meu Ipod. Ufa! Agora desejo usar meu Ipod! Ah já enjoou...

Quem pode contra o desejo? Como negar uma ereção ao ver o objeto de seu desejo ali na frente? Quem não sabe o que é sofrer pela constância da ereção e a falta de com que satisfazê-la? A ereção nos diz muito. Aquilo é o real, a ereção existe, é inevitável. Aquela ou essa são frutos de nossos caprichos. Nada mais real que o sexo, nada mais virtual que o sexo perfeito. O sexo já é perfeito, a ereção já é perfeito, a realidade é perfeita, por que é, nem mais nem menos, simplesmente é. Quanto mais chego a essa conclusão mais tranqüilo fico e tanto mais aprecio as coisas. Mais fácil um sábio tirar uma lição de um tolo que o reverso. O mundo está cheio de tolos, que infelizmente não se sabem ou acham como tal, vivendo vidas de sabedorias virtuais. Se os tolos aprendessem com os mestres Ronaldinho Gaúcho não ganharia de Platão na preferência global. Infelizmente a mediocridade está a todo lugar.

Não por serem medíocres são condenáveis. Mas por permanecerem medíocres durante toda uma vida. Vivemos como podemos, aos trancos e barrancos, sempre tentando melhorar, tentando. Somos todos medíocres, saber-se medíocre é o primeiro passo, o decisivo para encarar a vida com menos seriedade, com menos importância. Seu ego não é o mais importante, embora muitos só saibam viver em função dele. Sabedoria? Sabedoria requer negação ao ego, difícil? A sabedoria é realmente difícil, o caminho é o importante.

A direção, a ereção prova-me que cada vez mais a realidade conta, o real é o que interessa. Livros, filmes, virtualidades, desejos caprichosos são por demais pertencentes aquelas pessoas que nada pensam ou pensam muito pouco. Nada importa, por mais que livros, filmes, virtualidades nos ajudem a viver, mas que diabos! Viver é o que interessa. Livro não podem dizer mais do que um pôr do sol, uma caminhada na praia, um relacionamento findo ou duradouro. Um filme não dá mais a nós que uma boa conversa com um bom amigo. Uma música não nos dá mais alegria que o prazer do orgasmo despretensioso. Enfim, a arte está aí para ajudar-nos a viver, o que prova que não sabemos viver nem um pouco, recorremos a musica, aos livros, aos filmes e outras coisas mais, drogas muitas vezes, porque nos falta algo, não conseguimos captar tudo o que a realidade dura e crua, silenciosa, nos pode oferecer. Fazemos um escarcéu danado, pois não agüentamos ouvir o silencio. Que muitas vezes nos diz mais que muitos sabidos e muitas horas de vida.

Triste é ver alguém contando “nossa! você precisava ver, parecia um filme” chegamos ao ponto que a vida imita o filme e não o contrário. Estamos longínquos da realidade, virtualidade? Eis a nossa vida nos dias de hoje. Querendo, desejando, sempre insatisfeitos, sempre desejosos, sempre com aquela cara de cachorro magro, não porque passa fome de fato, sua fome é diferente, é uma fome gulosa, de sempre mais, até estourar igual o primeiro assassinado de S7ven. E o que não somos mais que uma gula espalhada por todos os cantos? Gula de comida, gula de sexo, gula de prazeres infindáveis.

Mais creio em nossa capacidade humana, alguns ainda se mostram capazes de se contentar com o real, com a ereção. Quem pode negar desejo com fome? Quem pode negar desejo com dinheiro? Estamos em dois casos em que nos dois temos uma parcela diminuta de pessoas que se responderiam não. Algumas, essas, ainda nos fazem ver que a humanidade, nós, seres humanos ainda temos alguma perspectiva. Não é pela maioria esmagadora de medíocres que ficaria infeliz, o que de fato fico, mas cultivo as poucas pessoas que consigo a levantar essa bandeira e melhorar, simplificar, de viver a vida real, não a virtual, sabendo, contudo, que nada é certo, inclusive minha opinião.


leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 14/09/2006
Código do texto: T240295
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz