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Podemos ressuscitar algumas pessoas que ja morreram

As pessoas morrem... Claro todos sabem, mas essa morte não é apenas quando um indivíduo deixa de respirar, seus sinais vitais cessam e sua atividade elétrica cerebral também. As pessoas morrem todos os dias, morrem aos poucos, muitas já estão mortas; ficam perambulando entre os vivos.

Está achando isso estranho? Claro que não to falando que estamos vivendo em meio a zumbis. Vou detalhar melhor:

Estava eu em mais uma caminhada, por volta das 14:00, voltava do almoço e avistei a uns 20 m, duas pessoas; como sou míope, não reconheci com detalhes de imediato, mas também nem precisava, afinal de contas isso é muito comum, pessoas andam pelas ruas; eram duas pessoas “normais” na rua conversando... Sim, talvez se não fosse a “desigualdade social” “a má distribuição de renda...”.

Era uma senhora e uma menina de uns 10 anos, provavelmente era sua filha; ambas estavam com sacolas nas mãos. A menina segurava uma sacola amarela com uma garrafa de refrigerante. Apenas uma garrafa, aqueles de R$ 0,99 o sabor desses é horrível, sei porque já tive o desprazer de experimentar.

Na sacola da mãe, não deu pra ver muito bem, mas parecia que havia um pacote de bolacha, margarina e alguns enlatados, notava-se que eram produtos de baixa qualidade. (não que eu saia por ai reparando o que as pessoas levam em suas sacolas, mas isso foi involuntário rs).

Notei que a mãe e a menina olhavam para dentro das sacolas, comentavam algo em voz baixa, e a medida em que eu ia me aproximando, elas me olhavam com os olhos “arregalados”, como se eu fosse alguma ameaça, como se não pertencêssemos à mesma espécie; exatamente como a presa olha para o predador.

Então imaginei como seria a vida dessas duas pessoas, será que essa senhora tem muitos filhos? Sobre o que falavam? E a menina... Será que ela tem uma infância digna, brinca, estuda, tem acesso a algum tipo de entretenimento que não seja novelas e reality show’s - que passam uma visão ilusória da realidade, contribuindo para que ela se torne mais uma cidadã frustrada?

Provavelmente a vida delas não é nenhum “mar de rosas”, não têm muitas opções, estão mortas... Uma vida indigna, a impressão que elas me passaram com seus olhares, foi de que se sentem excluídas de nossa “sociedade hipócrita”, com certeza não tem nenhum tipo de luxo, a palavra conforto lhes é totalmente desconhecida.

Vidas desprovidas de dignidade, porém mais unidas do que muita gente. Essa mãe falava com a filha com muita intensidade, de certa forma tinham um ar de satisfação, acredito que pelos produtos que levavam nas sacolas. Aqueles mantimentos simples representavam muito a elas.

Na correria eu dei um sorriso para as duas, eu não sou de sair por ai sorrindo pra todo mundo, mas quis ver a reação, quis demonstrar que eu era solidário, que não as condenava de maneira alguma, queria transmitir que as via como quaisquer outros indivíduos.

Elas se demonstraram surpresas, mas retribuíram o sorriso, o clima tenso passou... Até o tom de voz aumentou, pude ouvir um trecho da conversa. Eu continuei, não olhei para trás, nem sei quem são, talvez nunca mais as veja.

De certa forma nós nos interagimos, talvez eu tenha feito com que elas se sentissem “vivas”, mesmo que por alguns segundos, se sentiram reintegradas a “sociedade”, acho que vou sorrir para as pessoas mais vezes, algo simples, mas tem um poder incrível.

Se um simples sorriso tem o poder de ressuscitar pessoas mortas, imaginem o efeito que ele pode causar em pessoas que já estão vivas!
Chaos Theory
Enviado por Chaos Theory em 15/09/2006
Reeditado em 16/09/2006
Código do texto: T240968

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Sobre o autor
Chaos Theory
Itajubá - Minas Gerais - Brasil, 30 anos
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