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Abusado

     “A Lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente”.
                                                                           
          Art. 227 par. 4º da Constituição Federal


      - Quer dizer então que se for maior de 18 eu posso trazer?

     
      A placa de metal com a inscrição do artigo 227 sempre esteve sobre o balcão da recepção do hotel em que trabalho. Despercebida pela maioria dos hóspedes, talvez pelo desvio de olhar ou simples falta de interesse, a mensagem esconde, sob o brilho metalino, o respeito básico à criança e ao adolescente: sua sexualidade.

      A pergunta acima foi proferida, às gargalhadas, por um hóspede que, na tentativa de demonstrar astúcia criativa perante seus colegas de trabalho ou para exaltar sua retrátil veia humorística, somente realçou a cretinice social que enterra nossos valores. O olhar de reprovação do recepcionista, desprezado pelo pelotão que rasgava exagerados sorrisos, escondia a impotência que alimentava sua posição hierárquica.

      O que deveria ser um caso isolado, resultado do pensamento de que “sempre existe um idiota”, infelizmente possui freqüência assustadora. Solicitações noturnas para acompanhantes, chamadas pelos hóspedes mais envergonhados de “amigas” ou “namoradas”, bombardeiam as linhas da recepção. E se forem maiores de 18 anos, como defende o astuto gargalhante? Dias atrás, ao solicitar o documento de identidade de uma acompanhante trazida pelo hóspede de algum nebuloso prostíbulo metropolitano, percebi que havia aniversariado sua maioridade no mês anterior. A forma como movimentava o corpo e o vocabulário, repleto de insinuantes clichês da profissão, confirmavam que a mulher, de mãos entrelaçadas com seu namorado instantâneo, há tempos desempenhava essa função. Desde criança talvez.

      Infelizmente o poder do recepcionista limita-se a evitar que indicações dessa natureza ocorram, proibir a entrada de qualquer menor de idade sem documentação, mesmo acompanhado dos responsáveis, e evitar a entrada de garotas de programa que não estejam com documentos. E por que os hotéis continuam permitindo que hóspedes se relacionem com prostitutas? Pelo simples fato de que o falho sistema hoteleiro, baseado na crença tradicional de que “o hóspede tem sempre razão”, deseja evitar o desconforto causado por tal reprovação, principalmente entre aqueles que se hospedam assiduamente. Além disso, a miséria social, coligada ao pensamento de que a remuneração é insuficiente, estimula recepcionistas a solicitarem comissão para as indicações que fazem. Dessa forma o ciclo soturno segue caminhando, escondido no vazio da indiferença.

      A consciência de que existem limites para o atendimento exemplar deve ser encarada com responsabilidade. Proibir a entrada de hóspedes importantes com prostitutas? Por que não? Talvez sozinho em seu quarto, após ter despejado toda a fúria em quem o condenou, olhe as fotos de seus filhos e brinde a solidão. Talvez assista a indignação da prostituta revoltada que, ao caminhar pesadamente para fora do hotel, pense, mesmo que por um segundo, que a profissão escolhida não vale a pena.

      Certa vez, em outro hotel, fui surpreendido por um hóspede que desejava, desesperadamente, trocar de apartamento. Argumentou que não gostaria de dormir com a esposa, que chegaria no dia seguinte, no mesmo quarto em que havia dormido com uma prostituta na noite anterior. Enquanto verificava a disponibilidade percebi o constrangedor silêncio que preenchia aquele momento. Desviei mais um olhar enquanto digitava e, talvez pela cumplicidade que a situação causava, ouvi seu último desabafo:

      - Eu amo minha mulher, mas você entende como são essas coisas né?

      Entreguei o cartão magnético do novo apartamento sem responder.

      Sinceramente eu nunca entendi.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 15/09/2006
Reeditado em 30/09/2006
Código do texto: T240988

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério