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FALTARAM OS SONHOS NOS OLHOS...

Encontraram-se por acaso numa dessas salinhas de bate-papo da net. Ela gostava de conversar com as pessoas, conhecê-las, saber se preferiam verde ou amarelo, se gostavam de cinema, essas coisas. Fora da rede tinha pouco tempo e espaço pra isso: o trabalho, a casa, o marido, filhos, cachorro, papagaio e periquito, entre outras coisas a mantinham devidamente afastada da possibilidade de fazer amigos e conhecer outras pessoas. Ele, segundo dizia, também tinha o mesmo problema e a rede era uma boa solução. Era engraçado, ele usava um nick em inglês. Ela gostava de inglês e há muito não praticava. Jogou uma brincadeira:
- I need to learn English. Would u teach me?
- Sure...Private lessons?
E assim continuaram a “se ver” pelas salas. Depois vieram os e mails. Ele
parecia um cara legal. Tranquilão, não tinha os atrevimentos típicos dos galãs de internet que ela detestava. Não estava ali procurando sarna pra se coçar. Já se coçava por demais sem procurar. Ele entrou a falar um pouco da própria vida. “Coisa interessante isso...”, pensava. As pessoas sempre acabavam se abrindo com ela, mesmo que não perguntasse nada. E ela virava uma espécie de conselheira. Justo ela, com a vida toda bagunçada.
Um dia ele mandou uma foto. Queria que ela soubesse como ele era. Achou interessante isso. Só que ela, ao contrário da maioria, não tinha a menor curiosidade em ver como as pessoas eram do outro lado do monitor. Bastava-lhe vê-las através das palavras. Ele queria uma foto dela. Queria saber como ela era.
- Não vai dar. Não faço isso. Além disso, já te disse: 1,50m, 85 kg, sardenta feito ferrugem...
- Não acredito. Você deve ser totalmente diferente. Quem diz isso, geralmente é o oposto...
- Problema seu. Foto, não mando. Fica assim mesmo
Continuaram as conversas, ela dando pitaco no casamento dele que ia indo pelo ralo, aqui e ali um palpite em algum texto de trabalho dele que ele mandava pedindo opinião. Escrevia coisas muito bonitas, poéticas e ela gostava de poesia. Ele dizia que era porque tinha sonhos nos olhos.Ela gostou disso.Tempo depois, a notícia: ele estava voltando para o Brasil e para a cidade dele. A mesma onde ela morava.
- Acho que a gente devia se conhecer...
- Pra quê? Deixa assim.
- Mas não tem nada demais. Só quero conhecer a pessoa com quem falei tanto tempo...
Não. Definitivamente não seria bom. Temia um cantada e, desta vez, sem computador. Não queria confusão.  “Poxa, bobagem minha...o cara tem sido tão discreto, legal e, ainda por cima, tem sonhos nos olhos...Deve ser gente boa, nada a ver...Desencana”
- Tá...como a gente se encontra? A tua foto era meio antiguinha, você disse. E se eu não te reconhecer?
- Eu levo um livro de poesia na mão e uma flor.
E brincou:
- E os sonhos nos olhos...
Por precaução, não disse como ele a reconheceria. Bastava que ela o reconhecesse. No dia e local marcado ela foi. De longe, espiava cada um que entrava e que carregasse um livro e a flor. No dia seguinte, o e mail dele: “Eu te esperei a tarde toda. O que aconteceu? Por que você não apareceu? Eu fiz o combinado...O livro, a flor...O que houve?”
Pensou um pouco e respondeu: “Eu estava na sua frente. Você tinha o livro, a flor, mas esqueceu os sonhos ...Só vi desejo.”
Não se falaram mais.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 12/06/2005
Código do texto: T24105

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai